O desgaste autoinfligido

O blocão está se desmanchando, o governo está soltando dinheiro para obras originárias de emendas parlamentares ao Orçamento, o PMDB está recebendo com um misto de agrado e resignação os nomes que lhe dizem respeito entre os seis novos ministros - e a presidente Dilma Rousseff está obrigando os observadores a abandonar as últimas dúvidas que pudessem alimentar sobre o alcance da incompetência da "gerente" do Planalto.

O Estado de S.Paulo

15 Março 2014 | 03h01

Faz 40 dias que ela começou a reformar o Gabinete, para substituir os titulares compelidos pelas leis eleitorais a deixar os seus postos até meio ano antes da votação nacional de 5 de outubro, se a ela queiram se candidatar. Nesse período, as indecisões de Dilma, combinadas com a arrogância em desdenhar das pretensões do mais forte aliado do governo petista no Congresso, criaram um ambiente tóxico para o seu relacionamento com os políticos.

Vendo minguar as suas chances de acrescentar uma sexta pasta ao seu quinhão na Esplanada (ante as 17 em posse do PT) e de contar com o partido de Dilma para a formação de um número mais alentado de coligações em Estados relevantes, a começar do Rio de Janeiro, os agravados do PMDB reagiram a caráter, ignorando os panos aquecidos nos gabinetes do presidente licenciado da legenda, o vice Michel Temer, e do efetivo, o senador Valdir Raupp, de Rondônia.

O resto é história ainda fresca. Em pé de guerra com o PT - e implicitamente com Dilma -, o líder reeleito da bancada peemedebista de 75 deputados, o carioca Eduardo Cunha, articulou a formação de uma "frente independente" na Câmara. Engasgados com o fechamento dos cofres federais para as emendas parlamentares que representam o seu ganha-pão eleitoral, os políticos de média e de baixa patente de partidos idem correram a se filiar ao já denominado "blocão".

Mais de 250 membros de 7 siglas da base e 1 da oposição fizeram o estrago que impôs à presidente sucessivas humilhações no plenário e em comissões da Casa. Só então a presidente se animou a se erguer do seu berço soberbo para fazer o que teria feito com naturalidade desde a primeira hora, se tivesse um mínimo de clareza sobre as servidões do poder e da política - que impõem limites irremovíveis ao senso de onipotência de governantes como Dilma.

Com R$ 200 milhões destravados e outro tanto a caminho, dando lastro material às pressões pró-Planalto da cúpula peemedebista, o blocão de Eduardo Cunha virou um bloquinho agonizante apoiado por três partidos (PR, PTB e PSC) que somam apenas 70 deputados. O anúncio dos novos ministros - da Agricultura, Cidades, Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento Agrário, Pesca e Turismo - afastou da cena política visível as nuvens que a mão pesada de Dilma ali colocara.

Não que a tropa de choque de Cunha se desfizesse em louvações à clarividência da presidente. Tão depressa como se poderia pronunciar, respectivamente, os nomes de Neri Geller, Gilberto Occhi, Clélio Diniz, Miguel Rossetto, Eduardo Lopes e Vinicius Lages, o líder peemedebista deu de ombros. "Para nós é indiferente", comentou. "As nomeações não agradam nem desagradam." Seu colega de partido e presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, foi mais elegante.

"O PMDB da Câmara decidiu respeitosamente não indicar novos ministros", alegou, fingindo ignorar que o líder da bancada tinha sido riscado do rol de interlocutores de Dilma. "Agora, é preciso afirmar que as escolhas foram boas para o governo e o País." Das seis, duas se referem a pastas já peemedebistas, Agricultura e Turismo. Neri Geller, no primeiro caso, tinha o apoio da direção nacional da legenda e do senador ruralista Blairo Maggi, do PR.

No caso do Turismo, a nomeação foi um raro lance de lucidez da presidente. Em vez de insistir no seu preferido, um ex-prefeito de Ouro Preto, acatou o veto dos caciques peemedebistas e chamou o técnico Vinicius Lages, patrocinado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que tem lá suas queixas de Dilma. Tivesse tido um mínimo de competência e realismo, ela não precisaria ter vivido os dissabores das últimas semanas, antes de levar adiante, desgastada, a reforma ministerial.

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