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O drama do crack

O Estado de S.Paulo

19 Junho 2014 | 02h 06

Há muito que a imagem da Cracolândia - concentração de dependentes de crack em área bem delimitada - como símbolo do consumo dessa droga não corresponde mais à realidade. Mesmo na capital paulista, onde ela surgiu, já se assiste à sua multiplicação, com a formação de minicracolândias em várias regiões. A gravidade do problema, que se espalhou por todo o País, não para de aumentar. E São Paulo se transformou num exemplo de como essa droga consegue se disseminar por todas as cidades - pequenas, médias e grandes - e por todas as classes sociais, como mostrou reportagem do Estado.

Os números são inquietantes. Segundo estimativas dos governos federal e estadual, existem no Estado entre 350 mil e 400 mil usuários de crack. E um mapeamento feito pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) indica que é alto o índice de problemas acarretados por essa droga em 194 cidades, o que representa quase um terço dos 645 municípios paulistas. Eles apresentam índice médio em 256 municípios e baixo em outros 106. Ou seja, em maior ou menor grau, eles afetam a maioria dos municípios (556).

Nenhuma região é poupada. Estâncias hidrominerais e cidades turísticas como Águas de Lindoia, Serra Negra, Ilhabela, Ibitinga, Campos do Jordão e Martinópolis são alguns exemplos da rápida expansão do crack para áreas antes conhecidas por sua tranquilidade e segurança. Tal como acontece na capital, o consumo da droga se dá às claras, em locais de todos conhecidos, ou seja, já faz parte da vida das cidades. Em Garça, com 43 mil habitantes, na região centro-oeste, existem até mesmo fumódromos de crack, que funcionam como as antigas casas de ópio do Oriente.

Nas cidades grandes e médias do interior - como Campinas, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto - já existem minicracolândias, uma repetição do que acontece na capital. Como diz o prof. Ronaldo Laranjeira, um dos coordenadores da política antidrogas do Estado, "a droga segue o dinheiro. No Estado ocorreu a pulverização da rede de distribuição. O tráfico não é só mais na favela".

O crack tem características que o tornam uma droga particularmente perigosa. Por ser um subproduto sujo da cocaína, é barato, o que explica sua disseminação entre a população de baixa renda, tanto das grandes como das pequenas cidades do interior. E, como vicia rapidamente, seus efeitos são devastadores e tornam a recuperação mais difícil do que no caso das outras drogas.

Mas há muito deixou de ser o refúgio de viciados pobres. Cada vez mais atinge pessoas de classe média e ricas, como atestam depoimentos colhidos pela reportagem. Uma delas, hoje em tratamento de recuperação numa clínica em Campinas, calcula ter perdido mais de R$ 1 milhão em bens vendidos para comprar crack. A história de outra - "vendi três carros, motos, tudo a preço de banana" - mostra como os dramas se repetem, quase idênticos.

O caso de São Paulo é apenas mais uma prova de que o crack se tornou um drama nacional. Segundo um estudo sobre o consumo dessa droga nas capitais, feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, a situação do País é tão grave quanto a de São Paulo. Com base em dados de 2012 - e nada indica que a situação mudou para melhor desde então -, o trabalho revela, entre outros dados preocupantes, que nada menos do que 40% dos dependentes estão no Nordeste, igualmente 40% vivem nas ruas e a incidência de aids entre eles é 8 vezes superior à média.

O poder público reconhece a gravidade da situação. A presidente Dilma Rousseff lançou em 2011 um programa de combate ao crack, com investimentos de R$ 4 bilhões, e os governos estaduais, a começar pelo de São Paulo, e das cidades mais atingidas também desenvolvem ações nesse sentido.

Mas as estatísticas demonstram que isso está longe de ser suficiente. Para enfrentar com êxito esse verdadeiro flagelo é preciso um esforço muito maior dos três níveis de poder, tanto para a recuperação de dependentes como para um combate mais eficiente ao tráfico.

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