O emprego e o desemprego

Ainda que não contemplem as regiões metropolitanas de Salvador e de Porto Alegre, em razão da greve no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os resultados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de junho mostram que o mau desempenho da economia está afetando a qualidade do emprego e a duração do desemprego. A informação de que a taxa de desemprego permanece estável em relação ao mês anterior pode esconder realidades que preocupam.

O Estado de S.Paulo

28 Julho 2014 | 02h04

Segundo o IBGE, a "PME produz indicadores mensais sobre a força de trabalho que permitem avaliar as flutuações e a tendência, a médio e a longo prazos, do mercado de trabalho, nas suas áreas de abrangência, constituindo um indicativo ágil dos efeitos da conjuntura econômica sobre esse mercado, além de atender a outras necessidades importantes para o planejamento socioeconômico do País". Nesse sentido, a PME, ainda que parcial, cumpre o seu papel, pois traz informações tanto sobre o emprego quanto sobre o desemprego.

Por trás da estabilidade da taxa de desemprego - por exemplo, 5,1% em São Paulo -, observa-se uma tendência de maior precariedade no mercado de trabalho. Diminuiu o número de empregos formais e aumentou o de empregos sem carteira assinada, bem como o das ocupações por conta própria (por exemplo, vendedor informal de rua). Na comparação entre maio e junho, nas quatro regiões metropolitanas pesquisadas, foram fechados 55 mil empregos formais, abriram-se 28 mil postos sem carteira assinada e 34 mil pessoas assumiram algum tipo de ocupação por conta própria. O trabalhador está mais desprotegido.

Por setores, chama a atenção a forte queda de empregos formais na indústria. Entre maio e junho, foram fechadas 88 mil vagas no setor que continua abrigando no País os empregos de melhor qualificação.

A pesquisa revela também a queda entre maio e junho do rendimento médio real (salário descontada a inflação). A maior queda foi em Belo Horizonte (2,2%), seguida de São Paulo (1,6%), Recife (1%) e Rio de Janeiro (0,5%). Esses dados relativos ao rendimento são reflexo da piora da qualidade do emprego, já que os empregos formais - que pagam mais - diminuíram, e os informais - que pagam menos - aumentaram. Ter havido queda nas quatro regiões metropolitanas, em contraste com a taxa anual, que ainda se mantém positiva, reforça a percepção de uma inflexão significativa no mercado de trabalho. Para pior.

Em relação aos desempregados, o IBGE incluiu na PME dados que foram consolidados em uma série histórica pelo Banco Central. Tais dados também não são alvissareiros. Entre as pessoas que estão sem ocupação, aumentou o porcentual daquelas que estão à procura de recolocação por mais de um ano. Em abril do ano passado, esse grupo era de 12,8% do total de desocupados. Agora, são 17,4%. Está mais demorado encontrar emprego. Esse fenômeno, segundo analistas ouvidos pelo Estado, antecede o achatamento de salários, transforma o trabalhador em alguém "menos empregável" por perda de qualificação e expõe os problemas de uma economia que cresce pouco.

Os motivos para essa situação dos desempregados são a fraqueza da economia e o adiamento de investimentos. "A economia está gerando pouco emprego. O baixo crescimento do País afetou o mercado de trabalho", avalia José Márcio Camargo, professor da PUC-RJ.

Quer seja no emprego, quer seja no desemprego, os dados indicam que a desaceleração da economia já está produzindo os seus deletérios efeitos para o trabalhador. Essa constatação mostra que não procede o argumento do Palácio do Planalto de que, ainda que a economia não vá bem, os empregos continuariam bem. Descuidar da economia - como fez o atual governo - é descuidar do social, como começa a ficar claro. E, como ainda nada aponta para uma melhora da economia, tudo aponta - infelizmente - para uma piora no mercado de trabalho. A matraca do "pleno-emprego" começa a ser uma cortina de fumaça para os reais problemas que o trabalhador já está enfrentando.

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