O empurrão dos juros

Os cortes de juros podem contribuir, mas convém evitar muito otimismo

O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2017 | 03h03

Dar um empurrão na economia tornou-se, pela primeira vez em muito tempo, um objetivo explícito do Banco Central (BC). A atividade continua em recuperação gradual, mas ainda há desemprego elevado e muita capacidade ociosa na indústria, segundo o cenário usado como referência na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na semana passada. O Copom, formado por diretores do BC, é responsável pela estratégia de controle da inflação e, portanto, pela orientação básica do crédito. Na última reunião a taxa básica de juros, a Selic, foi reduzida de 9,25% para 8,25% ao ano. O comunicado sobre o novo corte, distribuído no começo da noite de quarta-feira passada, mencionou a preocupação com o ritmo dos negócios. Embora redigida em linguagem típica de BC, a mensagem é bastante clara: “O comitê entende que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, com taxas de juros abaixo da taxa estrutural”. Esse recado foi repetido com as mesmas palavras na ata da reunião, um documento mais completo publicado seis dias depois. Mas até onde será levado o afrouxamento do crédito?

Duas pistas são indicadas pelo Copom, sem referência, no entanto, a uma data-limite. Em primeiro lugar, o próximo corte de juros deverá ser inferior a 1 ponto porcentual, padrão usado nas últimas quatro decisões. No jargão usado na ata, a mudança é apresentada como “redução moderada na magnitude de flexibilização monetária”. Em segundo lugar, o encerramento do ciclo deverá ser gradual. Esse roteiro dependerá, naturalmente, de uma evolução sem surpresas do quadro econômico e político. Não há indicação de quando terminará o ciclo, mas, pelas apostas do mercado e por algumas indicações da ata, isso poderá ocorrer até o fim do ano.

Em 2017, o Copom deverá ainda reunir-se duas vezes, nos dias 24 e 25 de outubro e em 5 e 6 de dezembro. As últimas projeções do mercado apontam inflação de 3,14% e juros básicos de 7% no fim do ano. Para 2018, as estimativas apontam inflação de 4,15% e juros de 7,25%. As expectativas para 2019 são de maior alta de preços e da taxa básica. Com base nas mesmas hipóteses, as projeções do Copom são parecidas. Sobram algumas perguntas sobre as metas e a estratégia da política monetária neste fim de ano e ao longo do próximo.

A ideia de um encerramento gradual do ciclo parece indicar mais dois cortes da taxa de juros neste ano. Se essa hipótese estiver correta, uma redução de 0,75 ponto porcentual em outubro e uma de 0,50 ponto em dezembro conduzirão os juros básicos para 7%, confirmando a mediana das estimativas dos técnicos do sistema financeiro e das consultorias. Já há quem fale em algo inferior a 7%, mas isso parece pouco provável, neste momento.

Mas é preciso pensar em 2018. As projeções do mercado e do BC apontam ligeiro recrudescimento da inflação no próximo ano, para pouco mais de 4%. As mesmas avaliações indicam nova alta da Selic.

O Copom estará disposto a baixar os juros até 7%, neste fim de ano, se já estiver prevendo nova alta em 2018? A alta poderá ser pequena, mas o ambiente será especialmente adverso, em ano de eleições. A autoridade monetária, supõe-se, deve preferir o mínimo possível de ruído. Além disso, o Copom continua condicionando o afrouxamento de sua política ao avanço do ajuste fiscal e da agenda de reformas. É fácil prever para 2018 condições difíceis para a execução do Orçamento. O limite do déficit primário foi alterado de R$ 129 bilhões para R$ 159 bilhões e isso dará ao governo algum espaço extra para manobrar. Mas o Tesouro ainda vai depender de receitas especiais, derivadas de concessões e privatizações.

O jogo será facilitado se o crescimento econômico se acelerar. Os cortes de juros podem contribuir, mas convém evitar muito otimismo. A reativação da economia tem dependido do consumo e, em proporção menor, das exportações. Se as concessões e privatizações avançarem, o investimento produtivo aumentará e dará um impulso adicional à atividade. Não se pode cobrar do BC mais do que está fazendo.

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