O Enem de 2016

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O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2016 | 05h00

O Enem de 2016 manteve a tradição das provas anteriores, com alta taxa de abstenção, questões complexas e controvertidas, tentativas engenhosas de fraude, prisão de estudantes flagrados com ponto eletrônico e suspeitas de vazamento de algumas perguntas. A única novidade foi o número de inscritos que não puderam prestar o exame por causa das ocupações das escolas públicas de ensino médio e de algumas universidades federais. O órgão responsável pela prova, o Inep, estimava que 191 mil estudantes seriam atingidos. Mas como a UNE e a Ubes continuaram estimulando novas ocupações, no final da semana passada, mais de 271 mil foram prejudicados.

Entre os pontos positivos do Enem deste ano se destacaram, na prova de Linguagens, a ausência de quadrinhos e charges, a redução do número de perguntas com base em textos jornalísticos, maior ênfase a questões de gramática, cobrança de coesão textual. Na prova de matemática, foram valorizadas não as fórmulas que podem ser decoradas, mas o conhecimento de conceitos básicos de geometria espacial e plana, envolvendo cálculos trabalhosos aplicados a problemas concretos do cotidiano.

De todos esses problemas, o mais polêmico envolveu o tema de redação: Os caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil. A escolha de temas envolvendo problemas sociais e direitos humanos já é uma tradição no Enem. Das 19 edições do exame, 11 trataram desses temas. No ano passado, por exemplo, a redação foi sobre a violência contra as mulheres. Apesar de não tratar da intolerância contra uma religião específica, o tema de 2016 é polêmico entre católicos, evangélicos, protestantes e adeptos de práticas religiosas africanas, como candomblé e umbanda.

Para que os estudantes não se limitassem a fazer uma redação mais opinativa do que analítica, os responsáveis pelo Enem acrescentaram ao tema um conjunto de informações e de estatísticas publicadas pela imprensa para que pudessem fundamentar suas conclusões. Uma das estatísticas apresentadas revela que, a cada três dias, há uma denúncia de intolerância religiosa no Brasil. Extraída da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, outra estatística mostra que, entre 2011 e 2014, as maiores vítimas de intolerância religiosa foram os praticantes de candomblé e umbanda, seguidos pelos evangélicos.

Os temas de redação relativos a questões sociais e direitos humanos são importantes para a formação dos alunos do ensino médio. Contudo, sua utilização nas provas do Enem – cujas notas são aproveitadas pelo Sistema de Seleção Unificada, que substituiu o vestibular das universidades federais – esbarra no risco de enviesamento ideológico, pois o Enem deixa claro que os candidatos que desrespeitarem os direitos humanos terão nota zero. Ou seja, o Enem exige não que o candidato saiba se expressar corretamente, com precisão e lógica – qualquer que seja sua opinião –, mas que seja politicamente correto na linha previamente determinada pelos organizadores da prova. Não é, e não pode ser, essa a função do Enem.

Este risco ficou evidenciado na prova de redação de 2015, quando a quantidade de textos anulados cresceu mais de dez vezes com relação à prova de 2014. Foram 9.942 notas zero em 2015 contra 955 no ano anterior. A justificativa do Enem foi de que esses candidatos teriam justificado a violência contra as mulheres. Na prova deste ano, cujo tema pode possibilitar discursos de intolerância e opiniões de que algumas religiões são melhores do que outras, o risco de subjetividade na correção aumentou. Isso porque, além de não poderem negar a premissa implícita ao tema – ou seja, de que a intolerância religiosa é um problema –, os candidatos terão de propor uma “solução” para ele.

A prova de redação precisa ser repensada para que não se confundam a qualidade e a coesão do texto com apologias politicamente corretas. Permitir que o Enem funcione como um filtro ideológico – para qualquer lado do espectro político – é desfigurá-lo.

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