O ensino de matemática

A matemática não é apenas uma ferramenta para desenvolver o raciocínio e habilidades cognitivas. Também é decisiva para estimular a reflexão abstrata, o potencial crítico, a criatividade e a capacidade de argumentação

O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2018 | 03h12

Um ano após o sucesso da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – criada pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e que contou com 17 milhões de competidores e um número recorde de escolas inscritas – o Brasil entrou para a elite dessa área.

Trata-se do chamado Grupo 5, integrado pela Alemanha, Canadá, China, Israel, Itália, Japão, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos, segundo a International Mathematical Union (IMU), entidade dedicada à cooperação mundial no campo da matemática, e que classifica os 76 países-membros em cinco grupos por ordem de excelência. O Grupo 4 é integrado, entre outros, pela Austrália, Coreia do Sul, Suíça e Suécia. “É como se tivéssemos subido para a primeira divisão, se houvesse um campeonato mundial de matemática”, diz o diretor do Impa, Marcelo Viana.

A ascensão da matemática brasileira a um padrão de excelência mundial tem dois importantes aspectos relativos a políticas educacionais. O primeiro aspecto mostra que, quando uma política educacional é formulada de modo criterioso e com prioridades discutidas com a comunidade acadêmica, ela tem tudo para dar certo. Foi o que aconteceu com o ensino da matemática entre as décadas de 1950 e 1970, quando foram criados o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e o Impa, fortalecendo a pós-graduação nessa área. Com os recursos concedidos por aquele órgão para atividades de fomento à pesquisa, tanto o Impa como as principais universidades brasileiras passaram a formar gerações de doutores altamente qualificados em matemática, o que culminou com a conquista da medalha Fields – a mais importante na área, em todo mundo – pelo pesquisador Artur Ávila, em 2014. Esse padrão de excelência, contudo, circunscreve-se apenas à pós-graduação.

É esse o segundo aspecto a ser discutido, em face da entrada do Brasil no Grupo dos 5 da IMU. Se nos melhores cursos de pós-graduação do País o ensino de matemática vai bem, nos demais níveis educacionais ele enfrenta graves problemas de aprendizagem, como tem sido apontado pelos mecanismos nacionais de avaliação e pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), vinculado à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Em sua última edição, em 2016, o Brasil ficou em 65.º lugar, num total de 70 países. Isso é o resultado de políticas educacionais equivocadas, incoerentes e erráticas adotadas nos últimos anos. Elas agitaram bandeiras mais vistosas do que eficazes, mas revelaram-se incapazes de estabelecer prioridades, desperdiçando bilhões de reais em modismos pedagógicos e em aventuras como o programa Ciência sem Fronteiras.

Por isso, o Brasil que ingressa na elite mundial da matemática é o mesmo cujas escolas públicas de ensino fundamental diplomam crianças e jovens incapazes de dominar as técnicas matemáticas mais elementares e de ler e compreender textos simples. O baixo nível de ensino proporcionado a milhões de estudantes impede o País de formar o capital humano de que tanto precisa para se desenvolver e passar a níveis mais sofisticados de produção. Leva o Brasil a permanecer bem abaixo dos padrões necessários a uma economia capaz de ocupar mais espaço no mercado mundial. E perpetua as condições do atraso, da desigualdade e da pobreza.

A matemática não é apenas uma ferramenta para desenvolver o raciocínio e habilidades cognitivas. Também é decisiva para estimular a reflexão abstrata, o potencial crítico, a criatividade e a capacidade de argumentação. Assim, se por um lado o ingresso do Brasil no Grupo dos 5 merece aplauso, por outro se espera que a conquista deflagre uma ampla discussão sobre a reforma do ensino fundamental. Sem ela, o atraso educacional continuará limitando o acesso das novas gerações a empregos modernos e padrões de bem-estar comparáveis com aqueles alcançados há muito tempo pelos demais integrantes do Grupo dos 5.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.