O ensino de medicina

Dos 2.843 médicos recém-formados que se submeteram ao exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) para obter registro profissional, em novembro do ano passado, 1.684 - o equivalente a 59% do total - acertaram menos de 72 das 120 questões de múltipla escolha.

O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2014 | 02h07

O resultado seria preocupante caso os médicos reprovados ficassem proibidos de praticar a medicina, a exemplo do que ocorre com os candidatos reprovados nos exames da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). No entanto, como todos os participantes da prova de habilitação do Cremesp obtêm o registro profissional independentemente de seu desempenho, muitos não se preocupam em responder corretamente as questões da prova, que é obrigatória. Alguns chegam até a sabotá-la, dando respostas erradas a perguntas elementares e corriqueiras.

Por isso, os resultados do exame do Cremesp estão longe de refletir a realidade do ensino médico no Estado de São Paulo. Em outras palavras, o Cremesp defende que os formandos reprovados retornem às faculdades de medicina, mas é o exame de habilitação profissional aplicado pela entidade que sofre de problemas estruturais.

Originariamente, a prova foi concebida para avaliar se os recém-formados que pretendem trabalhar no Estado de São Paulo sabem o mínimo necessário para exercer a profissão. "A meta é proteger a sociedade", afirma Reinaldo Ayer, membro do Cremesp e um dos coordenadores do exame. Segundo a entidade, o exame é de nível médio, abrangendo as principais áreas da medicina, e as perguntas, além de terem amparo na literatura científica, são extraídas de provas equivalentes realizadas por entidades médicas de outros países.

Aplicados entre 2005 e 2011, os sete primeiros exames de habilitação do Cremesp foram facultativos - ou seja, os candidatos se submeteram a eles de forma voluntária. A partir de 2012, contudo, as provas passaram a ser obrigatórias, sem que os eventuais resultados negativos inviabilizassem o exercício da medicina. Desde então, a prova - que não tem o endosso do Conselho Federal de Medicina - padece de credibilidade e tem sido criticada por vários Conselhos Regionais de Medicina.

"O exame deixa muito a desejar. Ele não diz absolutamente nada. Se for aprovado ou reprovado, o profissional recebe a carteira profissional. O exame não implica qualquer bloqueio", afirma Antonio Carlos Lopes, diretor da Escola de Medicina da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), uma das mais conceituadas do País. "A prova não avalia o recém-formado em sua totalidade. Sabemos das limitações de testes de múltipla escolha", observa o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, superintendente do Hospital Sírio-Libanês e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP. "As respostas não devem ser sempre um rotundo sim nem um rotundo não. Uma prova de conhecimento como a do Cremesp é um indicador ainda restrito, o que mostra o quanto temos de investir em avaliação. Tenho enfatizado a construção de uma cultura em que a avaliação não aconteça só no fim do período, mas também no dia a dia das atividades educacionais. Uma avaliação que seja construtiva e que possa ser ajustada com relação a determinados objetivos. É importante fazer avaliações e correções ainda durante a formação do profissional", diz a presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), Jadete Barbosa Lampert, depois de lembrar que as avaliações do Ministério da Educação, em vez de "pontuar devidamente a atividade de ensino e a capacitação", valorizam mais a pesquisa e a titulação.

O modelo de avaliação adotado pelo Cremesp obviamente precisa ser reformulado. A qualidade dos cursos de medicina tem de ser zelada por corporações médicas e órgãos governamentais - e isso exige mais do que testes de múltipla escolha. O controle de qualidade deve ser feito durante todo o curso, nas salas de aula, nas residências médicas e nos hospitais universitários.

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