O entardecer da esquerda no Brasil

Numa de suas peças, 2.500 anos atrás, Eurípides, um dos grandes nomes da tragédia grega clássica, legou-nos a famosa passagem: "Oh, Zeus, o que posso dizer? Que você se interessa e cuida da humanidade? Ou nós, mantendo que os deuses existem, nos iludimos com sonhos vazios e mentiras, enquanto o acaso controla o mundo?".

ZANDER NAVARRO, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2015 | 02h04

O trecho tem inspirado incontáveis discussões acerca do papel das contingências e das circunstâncias na aventura humana. O conjunto de sonhos (e mentiras) seria a crença numa ordem moral que conformaria as arquiteturas sociais. Mesmo que ocorram infinitas transgressões, formas de violência ou o império da barbárie, o senso comum insistiria em que esses são desvios fortuitos em relação àquela ordem existente.

A frase propõe um dilema: ou aceitamos a existência daqueles sonhos - sejam as religiões, os valores ou as ideologias, ainda que pouco críveis - ou nos resignaremos às incertezas do acaso. Mas há consequências. De um lado, se nos curvarmos passivamente à ordem moral, desistiremos de nosso arbítrio e do controle sobre a forma como vivemos. De outro, aceitando a prevalência do acaso como o guia da História, abdicaremos da razão ou dos valores e a vida fluirá à deriva movida por contingências.

Em suas múltiplas vertentes, o campo da "esquerda" vem-se deparando com o dilema acima, sem solucioná-lo. Por isso agoniza em todo o mundo. Uma das principais razões é que a narrativa contemporânea da democracia é como se fosse um morro na planície. Excluiu inicialmente as pessoas comuns dos processos decisórios. Depois, elevou-se com as ondas de democratização no pós-guerra europeu, que integraram massas de eleitores em partidos que representavam seus interesses. Nesse ponto mais alto, a prosperidade social e econômica e a satisfação cidadã se encontraram. Os interesses do capital foram forçados a reconhecer seus limites e responderam democraticamente a governos legítimos. Em síntese, os mercados submeteram-se à política. As demais ondas de democratização repetiram desenvolvimentos com alguma similaridade em outras regiões.

Posteriormente, contudo, a linha começou a declinar, definhando a expressão real da democracia, ou seja, as escolhas políticas que correspondem às demandas dos eleitores. É um esvaziamento que vem sendo denunciado em quase todos os países, pois os processos decisórios se distanciaram dos partidos e dos parlamentos. Houve uma inversão e os mercados voltaram a autonomizar-se ante a esfera da política.

Por que tem sido assim? Afirmar somente sobre a espantosa hegemonia do grande capital globalizado simplifica as coisas. A vitória dos mercados, de fato, registra outras vias de desconexão entre a política e os cidadãos. Por exemplo, vai desaparecendo a noção de emprego estável que vigorou no passado. Ou, então, Estados nacionais vão se enfraquecendo com o receituário único, que é repetir no âmbito estatal as práticas das grandes empresas. Adicionalmente, os políticos e seus partidos parecem dispensar os eleitores, pois subsistem sem sua participação. Assim, as eleições tornaram-se meras disputas de slogans vazios.

Diante dessas mudanças, a esquerda foi encurralada, pois seu discurso se encaixava num passado, hoje inexistente. Sua ideologia não seduz mais e, assim, tem apostado apenas no acaso. Seus programas convencionais não têm a menor chance de ser concretizados ante as realidades macroeconômicas. É ilustrativo o caso grego atual, no qual o pior ainda está por vir e logo o eleitorado perceberá que o Syriza prometeu o que jamais entregará. A esquerda amofina, perplexa, em seu labirinto, pois a sua base social se reduz dramaticamente, suas grandiosas propostas não aderem ao mundo real e, finalmente, conta com um Estado hoje sem capacidade operacional. São alguns dos dilemas gerais que a esquerda enfrenta e, por isso, há um recuo generalizado de sua presença política em todo o mundo.

Por sobre esses fatos, somam-se as particularidades da esquerda brasileira e o campo petista no poder. Aqui ressurge vivamente o dilema proposto por Eurípides. Incapaz de oferecer um programa de governo e um projeto de nação, o PT no poder dedicou-se a desenvolver entre nós uma versão deplorável do binário proposto na tragédia ateniense. De um lado, costurou um manto gigantesco de sonhos irrealizáveis, recorrendo continuamente à mentira, enquanto entorpecia os cidadãos. Ao mesmo tempo, ficou torcendo pelo acaso e suas contingências afortunadas, que garantissem a sua manutenção no poder. Mas não deu certo: o repertório abusivo e suas manipulações vinham sendo de tal magnitude que em algum momento a letargia social foi desfeita.

Esse é o sentido manifesto dos protestos que surgiram inesperadamente em 2013 e se vêm mantendo. Sua interpretação gera disputas entre os analistas, mas poucos partem do mais cristalino: há, sobretudo, uma profunda indignação cidadã com o campo petista no poder, em todos os estratos sociais e em todas as regiões brasileiras, mudando apenas a sua magnitude. É um descontentamento catalisado pelos escândalos devidos à corrupção sistêmica, combinados com a crise econômica, o absurdo aparelhamento estatal e a chocante incompetência governamental. Por isso, entre tantas consequências, o campo petista poderá também incluir em sua biografia outro feito: seu fracasso liquidou a esquerda e uma visão mais progressista da política e do Estado no Brasil.

Incapaz de propor novos sonhos aos brasileiros, o campo político que comanda o governo se move agora exclusivamente pelas contingências do acaso. Alguém duvida? Então faça o teste, pois o esfarelamento da esquerda petista pode ser aferido de forma singela: mesmo acompanhado de seguranças, Lula passaria incólume num passeio pelo centro de qualquer capital do País?

SOCIÓLOGO, PROFESSOR

APOSENTADO DA UFRGS

(PORTO ALEGRE). E-MAIL:

Z.NAVARRO@UOL.COM.BR

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