O FMI volta à Argentina

Quando tomou a decisão de quitar até o ultimo centavo da dívida de US$ 9,81 bilhões que a Argentina tinha com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o então presidente Néstor Kirchner não se preocupou com o fato de que estava consumindo quase todas as reservas internacionais do país, para se livrar de um compromisso que naquele momento era administrável. Estava interessado apenas na bandeira política que aquele gesto lhe proporcionaria. Seu governo, dizia Kirchner, não mais aceitaria a ingerência nos assuntos domésticos de um organismo representante do grande capital internacional.

, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2010 | 00h00

Pouco mais de um mês depois da morte de Kirchner, em 26 de outubro, e menos de cinco anos depois do pagamento integral da dívida, no dia 2 de fevereiro de 2006, o FMI prepara-se para voltar à Argentina. O FMI irá àquele país não para lhe impor regras ou interferir nos assuntos internos, como ainda hoje temem muitos peronistas, mas para, a pedido do próprio governo argentino, chefiado por Cristina Kirchner, viúva de Néstor, ajudá-lo a reconstruir o que ele mesmo destruiu nos últimos anos.

Trata-se de recriar um Índice de Preços ao Consumidor de abrangência nacional e confiável, para substituir o atual índice oficial da inflação calculado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censo (Indec), cuja credibilidade foi destruída quando, no governo de Néstor Kirchner, o órgão passou a ser controlado politicamente.

As mudanças no Indec ocorreram em 2006, quando a inflação começou a subir, o que atrapalharia os planos políticos de Kirchner. Este encarregou seu secretário de Comércio Interno, Guillermo Moreno - o mesmo que destratou o embaixador brasileiro em Buenos Aires no mês passado -, de "solucionar" o problema da aceleração da inflação.

A substituição do corpo técnico do Indec por pessoas da confiança do governo levou à redução, pela metade, dos itens cujos preços são aferidos regularmente, sem se levar em conta critérios estatísticos. Em vários casos, os preços computados passaram a ser os fixados pelo governo, não os observados no mercado. Deixou de haver data fixa para a divulgação do índice oficial de inflação, o que também deu margem para a manipulação.

Há vários anos, por isso, os dados sobre a evolução dos preços na Argentina, nos relatórios periódicos do FMI sobre a situação econômica mundial, vêm acompanhados de nota alertando que, embora divulgados pelo governo, eles não são confiáveis, pois estimativas de instituições privadas indicam índices muito diferentes.

Além de manipular o índice de inflação - o que prejudica não só os investidores, frequentes alvos das críticas do kirchnerismo, mas sobretudo os assalariados, cuja renda real é corroída pelos índices fraudados -, o governo argentino vem se recusando a submeter suas contas oficiais ao escrutínio dos técnicos do FMI, como são obrigados a fazer os governos de todos os países-membros da instituição.

Sem o aval internacional de suas contas públicas, a Argentina passou a correr o risco de ser afastada do G-20, além de poder sofrer algum tipo de sanção pelo Fundo, como a denúncia, para todos os demais membros, da falta de credibilidade das estatísticas e dos dados econômicos do país - o que poderia comprometer o acordo anunciado pelo governo Kirchner com o Clube de Paris e que resolveria sua última pendência financeira internacional.

"O FMI não é um organismo de prestígio", disse há algum tempo o ministro das Relações Exteriores, Héctor Timerman. "Fazer um acordo com o Fundo seria colocar em prática um ajuste (econômico) selvagem", comentou o ministro da Economia, Amado Boudou, acrescentando que, se o governo argentino fizesse isso, as pessoas iriam pensar que "nos bajamos los pantalones".

Mas justamente Timerman e Boudou bateram às portas do FMI, para evitar sanções e pedir ajuda para restaurar a credibilidade do Indec. A chegada da missão técnica do Fundo a Buenos Aires está prevista para os próximos dias.

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