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O fogo de artifício das faixas

O Estado de S.Paulo

21 Junho 2014 | 02h 05

Não demorou muito para que os fatos - contra os quais, como se diz, não há argumentos - começassem a desfazer a encenação montada pela Prefeitura, com estardalhaço e claros objetivos eleitorais, para levar os paulistanos a acreditar que as faixas exclusivas eram uma solução milagrosa, capaz de dar maior velocidade aos ônibus e melhorar assim esse serviço. Tal como a mentira, da qual é parente próximo, esse embuste também tinha pernas curtas, como acabam de comprovar dados da própria São Paulo Transportes (SPTrans), empresa que gerencia aquele serviço.

As faixas situadas à direita de vias importantes possibilitaram um aumento muito pequeno da velocidade média dos ônibus - apenas 1 km por hora -, o que, decididamente, não compensa o esforço para sua implantação nem a perda para o sistema de transporte como um todo com a lentidão acarretada pela redução do espaço para os demais veículos. No ano passado, quando foram implantados a toque de caixa 300 km de faixas - o dobro do previsto para todo o mandato do prefeito Fernando Haddad -, os ônibus rodaram à velocidade média de 17 km/h no horário de pico da manhã em comparação com os 16 km/h registrados entre 2009 e 2012. No horário de pico da tarde, a velocidade média foi de 16 km/h para 15 km/h naquele mesmo período, como mostrou o Estado.

O fato de em algumas faixas o aumento da velocidade ter sido bem maior do que a média não serve de consolo. Primeiro, porque, em compensação, é claro, a velocidade nas demais é muito menor - daí a média tão baixa, muito aquém do esperado. Em segundo lugar, porque tal diferença é mais uma indicação da improvisação que marcou a iniciativa. Desde o início, a impressão - que agora se confirma - foi de que as vias em que elas foram implantadas foram escolhidas sem planejamento ou estudos técnicos. Se eles existiram, deles a população não teve conhecimento. Não que um plano bastasse para justificar medida polêmica como essa, mas ao menos mostraria que a Prefeitura tentou acertar, agiu com seriedade.

Além da escolha ao acaso das vias, outro aspecto das faixas que chama a atenção e até agora não teve explicação da Prefeitura é a questão do seu piso. O dos corredores merece cuidados especiais para que resista ao tráfego pesado dos ônibus. Além disso, é periodicamente reformado. Como é possível, então, esperar que o piso das faixas, que deve suportar carga semelhante, resista sem nenhum reforço? Ou a Prefeitura tem uma explicação escondida para isso ou o bom senso sugere que em pouco tempo ele estará desgastado.

O ar triunfante do prefeito Fernando Haddad e de seu secretário de Transportes, Jilmar Tatto, anunciando a panaceia das faixas - está se vendo -, não resistiu muito. Ele tinha gás para durar apenas o tempo de um fogo de artifício. Tatto, em especial, se esmerou nos exageros. Espalhou, como se fosse novidade, que é preciso dar prioridade ao transporte coletivo, daí a necessidade das faixas. E não perdeu a oportunidade de fustigar demagogicamente os carros, como se eles fossem os vilões das dificuldades de locomoção da capital. Ora, a imensa maioria dos que usam carros só o faz por falta da opção de transporte coletivo de qualidade.

Melhorar esse transporte - o de ônibus, no caso da Prefeitura - é coisa que exige mais seriedade e menos fanfarronice. Se essa fosse a postura da atual administração, ela teria cuidado mais dos corredores de ônibus - mais caros, mas que desempenham papel importante - em vez de perder tempo com as faixas. É verdade que Haddad promete 150 km de novos corredores. Mas antes que eles virem realidade é preciso cuidar melhor dos já existentes.

A velocidade média dos corredores nos horários de pico caiu no primeiro trimestre deste ano, em comparação com igual período de 2013. Na opinião de especialistas, para aumentar seu rendimento é preciso, entre outras coisas, fazer a sempre prometida e adiada reorganização das linhas de ônibus. O que se pode e deve fazer para melhorar o transporte é sabido. Mas para isso é preciso seriedade e vontade.

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