O freio ao crescimento

A economia brasileira continuou encolhendo em março, segundo o indicador de atividade elaborado mensalmente pelo Banco Central (BC).Esse indicador, considerado uma antecipação dos cálculos do Produto Interno Bruto (PIB), foi 0,35% menor que o de fevereiro e 1,18% inferior ao de um ano antes, mas o Ministério do Planejamento mantém a previsão de um crescimento de 4,5% para 2012. Essa previsão foi usada como referência, mais uma vez, para a nova revisão bimestral do Orçamento, divulgada na sexta-feira. Por enquanto os dados disponíveis são menos animadores. Em dezembro a atividade foi a mais intensa desde abril de 2011, de acordo com o BC, e a partir de janeiro a redução foi contínua.

O Estado de S.Paulo

22 Maio 2012 | 03h08

De acordo com o Ministério do Planejamento, o crescimento deve ganhar impulso nos próximos meses, graças à redução da taxa básica de juros, à ampliação do crédito oferecido pelos bancos e às medidas do Plano Brasil Maior. A economia brasileira, segundo a mesma análise, recuperou o dinamismo no fim do ano passado e o crescimento se intensificou de forma gradual no primeiro trimestre, mas as estimativas mensais do BC indicam o contrário.

O conflito de avaliações poderá ser eliminado, pelo menos oficialmente, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicar as contas nacionais do primeiro trimestre. Até agora, os números disponíveis mostram uma indústria em marcha lenta e uma safra de grãos e oleaginosas provavelmente menor que a de 2011.

Mesmo nos ministérios econômicos, no entanto, o ambiente dos últimos dias tem sido menos otimista que as projeções divulgadas com a revisão bimestral da execução orçamentária. O ministro Guido Mantega e outros funcionários do Ministério da Fazenda estão discutindo com porta-vozes da indústria automobilística e dos maiores bancos privados possíveis medidas para a ampliação do crédito aos compradores de veículos. E, embora mantendo o otimismo oficial com relação à atividade econômica, o Planejamento reduziu a projeção de receita tributária.

A revisão das projeções pode ser justificada, também no discurso oficial, com as preocupações em relação ao cenário externo. Essas preocupações são bem fundadas. O Brasil dificilmente ficará imune aos efeitos de um agravamento da crise europeia, especialmente se a Grécia abandonar de forma atabalhoada a zona do euro. Além disso, é preciso levar em conta a desaceleração da economia chinesa. Mas outros fatores afetam o crescimento econômico brasileiro e desses o governo tem cuidado com muito menos empenho.

Os empresários do setor automobilístico podem estar certos quando atribuem parte de seus problemas à retração da demanda no mercado interno. Essa retração é derivada tanto do comportamento dos novos consumidores quanto da cautela dos banqueiros. Os novos consumidores estão endividados e, além disso, dificilmente comprariam um novo carro em pouco tempo. Quanto aos banqueiros, tratam de se proteger de uma inadimplência já em alta.

Mas outras áreas do varejo continuaram em alta nos últimos meses. Em março, as vendas do comércio foram 0,2% maiores que as de fevereiro. Além disso, foram 12,5% superiores às de um ano antes. Nesses números não se incluem as vendas de veículos e componentes. Mas nas vendas do comércio ampliado - com a inclusão de veículos e componentes e também de material de construção - o aumento mensal foi de 0,6%, apesar do mau desempenho do setor automobilístico. Na comparação com março de 2011, a diferença para mais foi de 10,2%. Esses resultados se explicam pela manutenção de um alto nível de emprego, pelo aumento do bolo de rendimentos e, pelo menos até recentemente, pela forte expansão do crédito.

Para a maior parte da indústria, portanto, o problema não é a falta de demanda no mercado interno. A procura tem sido bastante razoável, mas produtos importados ocupam espaço crescente no mercado brasileiro. As medidas do Plano Brasil Maior foram insuficientes, até agora, para dar musculatura à indústria brasileira. É preciso examinar a situação desse ângulo.

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