O grande circo

A uma plateia embevecida, alheia ao fato de estar ouvindo palavrório de um criminoso comum – condenado por unanimidade em segunda instância –, Lula afirmou, com seu conhecido despudor, que sua luta para livrar-se da prisão é a mesma que fora travada por Joaquim José da Silva Xavier

O Estado de S.Paulo

04 Abril 2018 | 03h00

Após o retumbante fiasco de sua “caravana” pelo Sul do País, o ex-presidente Lula da Silva encontrou na cidade do Rio de Janeiro o local propício para repetir a velha ladainha para seu rebanho de fiéis: um circo. Do palco do Circo Voador – picadeiro talvez fosse mais apropriado –, no boêmio bairro da Lapa, o sr. Lula da Silva, condenado a 12 anos e 1 mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, não precisou sequer exercitar a criatividade para mudar algumas palavras de seu mecânico discurso. Como se tratava de uma pregação para convertidos, o público já era dele antes que abrisse a boca.

No evento, chamado de “ato em defesa da democracia” e classificado como “suprapartidário” – lá estiveram representantes do PT, PSOL, PDT, PSB e PCO, além dos movimentos ditos sociais –, Lula da Silva, uma vez mais, recorreu à comparação a Tiradentes para elevar-se ao panteão dos grandes heróis nacionais injustiçados.

A uma plateia embevecida, alheia ao fato de estar ouvindo palavrório de um criminoso comum – condenado por unanimidade em segunda instância –, Lula afirmou, com seu conhecido despudor, que sua luta para livrar-se da prisão é a mesma que fora travada por Joaquim José da Silva Xavier para escapar da condenação à morte imposta pelo Império.

Este é o grau de desfaçatez: além das justas batalhas que encampou pelo bem do povo brasileiro, Lula da Silva agora luta contra as arbitrariedades de um Estado-juiz ditatorial. Onde mais se não em um circo para que coisas assim sejam ditas sem provocar incontroláveis risos de constrangimento?

Em outro momento particularmente divertido do espetáculo, Lula da Silva afirmou “gostar tanto da democracia” que estaria disposto, atente o leitor, a “debater” com o juiz Sérgio Moro e com os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, o “mérito” de seu processo.

Primeiro, uma corte judicial não é uma assembleia onde é dado a um condenado debater o mérito de um processo com os seus julgadores. Segundo, o debate de mérito que Lula da Silva propõe já foi feito ao longo do curso do processo por meio de seus advogados. Nos foros próprios, restou comprovada a culpabilidade do ex-presidente e, ao fim, foi-lhe atribuída uma pena prevista em lei, contra a qual foram interpostos todos os recursos processuais cabíveis até aqui.

Lula da Silva foi julgado e condenado por nada menos do que nove juízes até agora. Esta condenação, é bom lembrar, foi resultado do primeiro de uma série de seis processos nos quais Lula da Silva é réu.

O Brasil vive sob a égide do Estado Democrático de Direito e ao ex-presidente foram garantidas todas as condições constitucionais para o exercício de sua defesa dentro do chamado devido processo legal. Qualquer análise desapaixonada dos fatos mostrará que não passa de uma afronta às instituições pátrias qualquer tentativa de desqualificar as decisões tomadas pelo Poder Judiciário no caso da propriedade do apartamento triplex no Guarujá, dado ao ex-presidente como forma de compensação por benefícios prestados à empreiteira OAS.

A farsa no circo carioca não estaria completa sem que as mortes da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de Anderson Gomes, motorista que a atendia, fossem exploradas politicamente por aqueles que foram os primeiros a bradar pela despolitização do brutal duplo homicídio. Antes mesmo que os corpos fossem baixados às sepulturas, não custa recordar, o PT já havia divulgado uma nota em que associava os homicídios ao mesmo tipo de “perseguição” que seu chefão estaria sofrendo. “A democracia pra mim não é uma coisa pequena. Não é só dizer que eu tenho o direito de ir e voltar. Mas, de fato, permitir que ir e volte (sic). A Marielle foi e não voltou”, disse Lula, sem que fosse admoestado pelos correligionários da vereadora assassinada, todos lá presentes, para que evitasse a exploração barata de um crime que ainda não foi devidamente esclarecido pelas autoridades competentes. Mas, em se tratando de Lula – e de circo –, tudo é possível.

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