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Opinião

Espaço Aberto

O incomum entre as commodities

O termo commodity, do inglês, já foi incorporado à língua portuguesa e em 2004 meu dicionário já continha uma definição que confirma o que sei como economista. É “qualquer bem em estado bruto, geralmente de origem agropecuária ou de extração mineral ou vegetal, produzido em escala mundial e com características físicas homogêneas, seja qual for a sua origem, geralmente destinado ao comércio externo”. O dicionário cita como origem o referido termo, significando mercadoria, e commoditas, do latim, qualidade do que tem proveito e utilidade, que está na raiz da palavra comodidade na nossa língua.

Roberto Macedo

03 Março 2016 | 03h00

Características físicas homogêneas não devem ser tomadas no sentido estrito. Como commodity, o mesmo dicionário cita, por exemplo, o café, mas este tem características distintas, basicamente as dos tipos arábica e robusta ou conilon. O minério de ferro depende do seu teor metálico, enquanto milho e soja se enquadram melhor na citada definição.

Tais exemplos evidenciam o óbvio de que há várias commodities e algumas com suas próprias variedades. Não obstante venho observando que o noticiário sobre o assunto, ampliado pelo que vem dos ajustes em andamento na economia da China, grande compradora de várias coomodities, costuma juntá-las todas num só navio que transporta desinformação. Por exemplo, enfatiza-se que os preços das commodities em geral vêm caindo, mas sem precisar aquelas cujos preços caem mais do que os das demais.

E muitas vezes também não se diz que preços são esses, se em reais ou em dólares, o que é particularmente importante em face do fortíssimo aumento da taxa cambial em reais por dólar que entre janeiro de 2014 e o de 2016 aumentou cerca de 70%. Também não se fala se os respectivos setores produtivos e suas empresas estão endividados em dólares ou não, o que também leva a uma grande diferença, conforme se verá mais à frente neste texto.

Prosseguirei com apenas duas commodities que ilustram distorções que vêm da mistura de ingredientes incomuns que produz esse grande bolo de commodities com limitado teor informativo. São a soja e o minério de ferro sobre as quais encontrei no noticiário recente informações dispersas aqui e ali e que agreguei em dois conjuntos de informações bem mais relevantes.

Começando pelo minério de ferro, na última sexta-feira o jornal Valor Econômico estampou manchete de primeira página intitulada “Vale perde R$44 bi e vende ativos”, ao analisar o prejuízo em 2015 dessa empresa, a maior exportadora brasileira desse minério e uma das maiores em escala mundial. Esse prejuízo foi o maior desde 1986 entre as companhias com ações em bolsa no Brasil.

No detalhe a matéria mostrou que entre 2 de janeiro de 2014 e 31 de dezembro de 2015 o preço médio do minério de ferro no mercado internacional caiu de 135 para 42,9 dólares por tonelada, uma queda de 68%. No caso da Vale, num período menor, o compreendido entre o quarto trimestre de 2015 relativamente ao mesmo período de 2014, quando o preço já havia caído, a queda foi de 61,2 para 37,2 dólares por tonelada, ou de 39,2%. Mas, o que mais pesou nos resultados da empresa foi uma baixa contábil de R$36,2 bilhões, ligada à reavaliação dos seus ativos, que inclui entre outros casos o valor de suas minas, também em queda. E houve ainda uma revisão para cima do valor em reais de suas dívidas em dólares como resultado da desvalorização da nossa moeda.

Passando à soja, tenho à frente um gráfico produzido pelo Departamento do Agronegócio, da FIESP, mostrando que seu preço em dólares por saca de 60kg caiu de cerca de 30 para 20 dólares ao longo de 2014, ou cerca de 30%, e permaneceu perto desse valor em 2015. Em 2014, o preço da saca em reais também caiu, de um valor próximo de R$80 para R$60, mas no final de 2015 esse preço retornou ao primeiro valor. Ou seja, seu preço caiu menos do que o do minério de ferro em dólares, e a queda em reais foi revertida pela desvalorização cambial, pelo menos em termos nominais.

E há outras razões para esse quadro mais favorável da soja relativamente ao do minério de ferro, o que também se traduz na mesma perspectiva futura para as duas commodities. A China tomou a decisão de reorientar seu modelo de desenvolvimento na direção de mais consumo e de uma menor proporção de investimentos no seu PIB, alterando a composição de sua demanda de commodities em favor da soja relativamente à do minério de ferro. Essa decisão foi tomada pelo partido Comunista Chinês, que costuma cumprir o que promete, e que vejo como o partido político, incluídos os nacionais, que mais fez pelo Brasil na década passada.

Tenho também informações de que a migração das zonas rurais para as urbanas daquele país está caindo, mas deve continuar num número ainda elevado, algo torno de 10 milhões de habitantes por ano, o que também deve expandir a importação de alimentos. Ademais, dados do Ministério da Agricultura dos EUA preveem que quase todo o crescimento das importações chinesas de soja nos próximos dez anos será suprido pelo Brasil, já que aquele país não tem condições de aumentar com vigor sua produção. Acredito que tanto pela escassa disponibilidade de terras como porque não conta com condições para continuar ampliar sua produtividade já elevada, seja por razões tecnológicas ou no plano da infraestrutura, caso em que o Brasil, se tiver juízo, tem um grande espaço para se tornar mais competitivo.

Portanto, caro leitor, quando se deparar com notícias sobre commodities, procure identificar os vários bolos oferecidos. Se for o bolão que junta tudo, trata-se de um prato inconveniente, como ao misturar alimentos com minérios. Inconveniente também porque poderá lhe causar desarranjos informativos e riscos de decisões equivocadas. Por exemplo, no que diz respeito a seus investimentos em ações.

ROBERTO MACEDO É ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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