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O Iraque xiita em xeque

O Estado de S.Paulo

19 Junho 2014 | 02h 06

Semanas atrás, ao anunciar a desmilitarização da política externa dos Estados Unidos, o presidente Barack Obama chamou de "insustentável" a estratégia de invadir países que abriguem redes terroristas. Referia-se, naturalmente, à decisão do antecessor, George W. Bush, de atacar o Afeganistão, reduto da Al-Qaeda, em seguida ao 11 de Setembro. Qual poderia ser, passada quase uma década e meia, a alternativa sustentável? A pergunta não é acadêmica nem pode ser respondida com generalidades. Foi lançada à ordem do dia por uma nova - e desafiadora - situação de fato.

Três anos depois da saída das derradeiras tropas americanas no Iraque, sem que este tenha superado seus conflitos internos, Obama se vê obrigado a reconhecer que o país enfrenta uma "situação de emergência" e que ele "não descarta nada" em apoio ao governo do primeiro-ministro Nuri al-Maliki. Há uma semana, uma falange terrorista tomou, sem resistência, a segunda maior cidade iraquiana, Mossul.

Trata-se da organização autodenominada Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, na sigla em inglês pela qual se tornou conhecida), que rompeu com a Al-Qaeda por considerar os sucessores de Osama bin Laden "moderados demais". A Casa Branca apressou-se a ressalvar que o envio de tropas terrestres "não está contemplado", mas não negou eventual apoio aéreo a Bagdá. O que está em jogo é a sobrevivência do Iraque como país.

A mais violenta das forças em guerra com o regime de Bashar al-Assad na Síria, o Isil comete barbaridades inomináveis por onde passa. Em janeiro, 6 mil de seus efetivos cruzaram a fronteira iraquiana. Com o apoio de setores da população sunita - marginalizada pela maioria xiita no poder -, apossaram-se das cidades de Ramadi e Faluja, apenas 60 quilômetros a oeste de Bagdá. Novas remessas americanas de armamentos a Maliki não fizeram a menor diferença.

Mas a conquista de Mossul faz enorme diferença. É a maior derrota dos xiitas desde as matanças de 2007/2008 entre eles e os aliados do ex-ditador sunita Saddam Hussein. Durante seus 23 anos de tirania, os xiitas e os curdos (o terceiro grupo etnorreligioso do país) sofreram perseguições selvagens. A invasão americana, a pretexto de eliminar os arsenais de destruição massiva de Saddam, afinal inexistentes, só aprofundou os ódios.

O desmonte do Exército e da burocracia controlados pelo partido do autocrata, o Baath, foi entendido pelos sunitas como evidência de que a ocupação não visava a conduzir o Iraque à democracia, mas entregá-lo aos xiitas, ligados, paradoxalmente, aos seus correligionários iranianos. O governo Maliki nada fez que dissipasse essa convicção.

Descrito no Ocidente como faccioso, autoritário e incompetente, o primeiro-ministro apartou do poder os sunitas e adotou políticas discriminatórias e repressivas contra eles - tornando praticamente intransponível o fosso entre os iraquianos. Não admira que os excluídos, boa parte deles muçulmanos moderados ou mesmo seculares, celebrem os ganhos territoriais do Isil, determinado a refazer as costuras do mal alinhavado país.

Mais do que dominar tantas cidades quantas possa, o seu projeto é formar um califado, um Estado teocrático do leste sírio ao sudoeste iraquiano. Daí a importância estratégica da tomada de Mossul, no centro da Província de Nínive, que compartilha com a Síria 480 km de fronteira. Eis por que, no Oriente Médio, o passado volta para assombrar os Estados Unidos. E eles só têm a si próprios para culpar por isso.

Uma "rede terrorista", como diria Obama, criando naquele campo minado uma espécie de Jihadistão, acionaria no Oriente Médio uma nova bomba-relógio, potencialmente mais devastadora que a da Al-Qaeda na Ásia Central. O cenário compele Washington a dar força ao xiita de Bagdá. Ainda que, para tanto, tenha de fazer frente única com os xiitas de Teerã, como admitiu o secretário de Estado John Kerry. Só o Irã, de fato, é capaz de repelir o Isil. Mas não se espere que induza Maliki a abrir o seu governo aos sunitas.

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