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O maior culpado pelas taxinhas do PIB

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Roberto Macedo

Várias explicações vieram depois que o IBGE anunciou que o produto interno bruto (PIB) cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre de 2014 relativamente ao quarto de 2013. Mas a maioria delas, principalmente as que vieram do governo federal, ou ficou na superfície ou atendeu às conveniências de quem as forneceu.

Irei além, começando pelo que disse o ministro da Fazenda sobre essa nova taxinha do PIB. Afirmou Guido Mantega que restrições ao crédito e uma inflação mais elevada prejudicaram o consumo das famílias, que então mostrou queda de 0,1%. Mas vale lembrar que a política anti-inflacionária cabe ao governo. Assim, a ineficácia dessa política deve ser debitada a ele mesmo.

O crédito contido também é culpa dele, pois por vários anos houve exageros na sua concessão, o que prejudicou a capacidade de o consumidor obter mais crédito, agravando-se a inadimplência de muitos e levando a uma maior cautela dos bancos em concedê-lo. Mantega também falou de juros mais altos, mas estes vieram da incapacidade governamental de sustentar, com moderação dos gastos governamentais, a política monetária que o Banco Central executou de setembro de 2011 a abril de 2013, voltada para reduzir a taxa básica de juros, a Selic.

Não está nos manuais de economia estimular a economia tanto por meio de mais gastos públicos e de redução de impostos quanto com juros mais baixos, quando o uso de sua capacidade produtiva está alcançando o seu limite, o que ocorre no Brasil.

É sabido que por vários anos o governo apostou no consumo - inclusive no próprio, pois cresce acima do PIB - e no crédito para impulsionar a economia. Ou seja, na expansão da demanda, descuidando-se dos investimentos, que a médio e longo prazos constituem a força mais importante. Eles não apenas geram demanda por fatores de produção - o que, entre outros desdobramentos, aumenta a renda dos trabalhadores - como também ampliam a capacidade produtiva da economia, isto é, a oferta de bens e serviços.

Desde agosto 2012 o governo acordou para essa obviedade. Percebeu, então, que não tinha dinheiro para investir e, a contragosto de sua ideologia, teve de engolir um sapo ao recorrer à privatização de serviços públicos mediante sua concessão a entes privados. Porém continua sonolento nas suas ações para estimular investimentos. No caso das ferrovias, por exemplo, o programa que anunciou naquela ocasião ainda não saiu da primeira estação da sua linha de implementação.

A obsessão do governo com o consumo é tanta que seus arautos se esquecem até de um aspecto que lhe é favorável: o fato de que o financiamento imobiliário vem crescendo a taxas bem mais altas do que o crédito aos consumidores, e o pagamento das prestações dos imóveis deve estar apertando orçamentos familiares e contendo o consumo. Isso é ótimo, pois significa que as famílias estão poupando mais e investindo em imóveis. Mas esse processo precisaria alcançar uma dimensão muitíssimo maior para que tivesse peso bem mais forte no total de investimentos da economia.

Quanto a estes, não ouvi o ministro falando deles, talvez porque não fosse de sua conveniência. Além de já muito baixos relativamente ao PIB, seu desempenho se mostrou negativo nos três últimos trimestres quando analisados da mesma forma, isto é, em comparação com cada trimestre imediatamente anterior. Essas quedas foram importantes na determinação das taxinhas do PIB.

Mas por que não crescem os investimentos, ou, na linguagem do IBGE, a formação bruta de capital fixo, como, por exemplo, via novos empreendimentos produtivos ou expansão dos existentes, como em fazendas, estradas, portos, usinas hidrelétricas, fábricas, hospitais, escolas e shopping centers? Aí a responsabilidade do governo é inequívoca, pois na parte que lhe toca ele arrecada muito e investe pouquíssimo.

Quanto aos investimentos privados, o governo interveio em vários mercados, como nos de eletricidade, derivados de petróleo e etanol, e recorre à tal “contabilidade criativa” para forçar “bons” resultados nas suas contas. Com isso criou um clima de insegurança quanto à ação do governo, o que acabou por prejudicar a expansão dos investimentos privados.

Mantega também culpou o fraco desempenho da economia mundial, que prejudica as exportações brasileiras, mas despreza o fato de que vários países igualmente afetados por esse mau desempenho não mostram crescimento tão baixo como o do Brasil. Ainda no tocante ao setor externo, no cálculo do PIB entram as exportações e são descontadas as importações. No primeiro trimestre deste ano as exportações caíram 3,4% e as importações subiram 1,4%, no conjunto prejudicando o PIB, um problema que se repete e o governo também não consegue reverter.

Ontem surgiu mais uma explicação para as taxinhas do PIB, vinda após uma reunião do ex(?)-presidente Lula com quem toca o expediente. O diagnóstico apontou que o “péssimo humor” dos empresários foi a razão mais importante dessa nova taxinha do PIB. Já apontei motivos pelos quais os empresários estão inibidos ao investir. Ora, essa nova “explicação” do governo equivale a alguém culpar seu interlocutor por ficar mal-humorado depois que esse alguém se comportou de modo inconveniente.

E o cenário é de mais taxinhas. Ontem, por exemplo, vieram dados da indústria de transformação mostrando que sua produção caiu 0,3% entre março e abril, segundo o IBGE. Relativamente abril de 2013, ela recuou 5,8% (!). Em abril a queda concentrou-se nos bens duráveis de consumo e bens de capital, incluídos insumos típicos da construção civil, o que aponta para nova queda dos investimentos neste segundo trimestre. Já há analistas prevendo até uma variação negativa do PIB no mesmo período.

O governo deveria mesmo é reconhecer os seus erros, pedir perdão e guiar corretamente a economia.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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