O maior julgamento não é o da Justiça

É muito interessante a forma como as pessoas, principalmente os políticos, olham para operações de investigação como a Lava Jato. Estão todos estritamente preocupados com o que pode acontecer no âmbito jurídico. Claro que esse é um ponto extremamente importante, até porque em muitos casos está em jogo a própria liberdade, o chamado direito de ir e vir e, evidentemente, seus respectivos patrimônios, já que a maioria das sentenças condenatórias está associada a pesadas multas e ao confisco de bens, além de desdobramentos na Receita Federal e em outros órgãos de fiscalização. Acontece que quando a pessoa se descobre político, quando enxerga em si a veia da vocação política, passa a ter dentro de si, de forma meio velada, uma vaidade associada ao poder. No íntimo, o pior prejuízo para os atuais e futuros condenados será a reprovação pública.

Roberto Dualibi*, O Estado de S.Paulo

29 Março 2016 | 03h00

Para mim, os políticos que chegaram ao poder e sentiram o gostinho de estar lá em cima, os verdadeiramente vocacionados, sofrerão muito mais pela falta da bajulação popular, dos tapinhas nas costas, do pastelzinho de feira do que pela retirada de mansões, privação dos carros de luxo e iates, sem falar nas polpudas contas bancárias. Digo isso porque aprendi a ver a classe política com os olhos de quem ligou a vida toda com as expectativas das pessoas em relação a desempenho, seja de produtos, de campanhas, ou da própria trajetória de vida. Nunca é demais lembrar que muitos já sentem isso na pele. Os que foram condenados e até presos hoje são alvo, assim como suas famílias, do desprezo popular ao entrar num restaurante, num saguão de aeroporto. Essa é a pior punição, a maior condenação que alguém com apego à popularidade pode sofrer.

Todo mundo guarda dentro de si uma expectativa. Isso de certa forma molda a vida da gente. Claro que se você projeta ser importante ou não, influente ou não, famoso ou não, o mais importante passa a ser atingir esses objetivos. O certo é que as pessoas sempre lutam para ser as melhores em suas respectivas áreas de atuação. Se isso não se concretiza, elas acabam se frustrando e essas coisas terminam interferindo na sua personalidade, na sua formação. Isso mexe com o jeito de conviver com as outras pessoas ao seu redor e com a forma de viver a vida. No caso dos políticos, o poder é o maior patrimônio de cada um. Estar longe dele é, sem dúvida, o pior dos mundos.

Se alguém quiser prejudicar um político de forma direta, basta tirar-lhe o cargo, a influência, a capacidade de decidir, de mandar. Um político sem poder é a própria imagem da frustração. Essa relação dos homens públicos com os cargos sempre foi crucial para a vida deles. Estar na mídia de forma positiva, à frente, em destaque, ser reconhecido por onde passa, ter a certeza de uma eleição ou reeleição, ou até de influenciar decisivamente para elevar um indicado a um posto importante é fundamental. Esse tipo de poder estabelece o rol de influências, cria uma leva de asseclas e seguidores, determina quem está ou não por cima da situação. Estar num momento assim faz com que todos queiram falar com o “poderoso”, recebê-lo em jantares, deixar-se fotografar a seu lado. Perpetuar-se no poder e manter esse status quo passa a ser o objetivo maior.

Conheço muita gente que daria uma mão para sair na mídia ao lado de determinados homens e mulheres públicos; e digo isso mesmo em relação a figuras que até há pouco tempo apareciam como poderosas personalidades da República. Ainda que essa situação de estar próximo não lhe trouxesse nenhum benefício, a pessoa iria certamente postar fotos nas redes sociais e se vangloriar. Hoje não sei se a disposição é a mesma. Deve haver muita gente rasgando arquivos, apagando fotos e outras referências do passado.

Então, nesta hora em que todos parecem suspeitos, aparentam estar sendo de alguma maneira investigados, indiciados, julgados, sondados, até porque podem ou não ter algum nível de envolvimento ilícito, é evidente que a preocupação em se safar de tudo isso, ficar a 200 quilômetros do noticiário de crise, se tornou a intenção imediata, passou a ser a prioridade zero. O medo, afinal de contas, é também um sentimento imediato, faz parte do instinto de defesa e de sobrevivência e produz essa situação toda. Porém, a despeito dos desfechos das investigações e dos processos, por mais dolorosas que possam ser as punições, para mim, a fase seguinte será a mais sentida pelos eventuais condenados.

Para um político, não poder disputar uma eleição ou candidatar-se e se reconhecer no pé das pesquisas de intenção de voto é a pior das consequências. Estar longe do poder é a maior punição que um político pode receber. O ostracismo, o abandono, o sentir-se só acaba com qualquer um nesse campo de atividade.

O político quer entrar num restaurante e ser notado, tirar fotos com as pessoas, ser procurado para opinar sobre tudo por jornalistas importantes de grandes veículos. O político quer ter à disposição cabos eleitorais, gente que o assessore, secretárias, quer ser procurado por empresários, por partidos desejando associar-se ao seu nome. Sem isso, tudo o mais passa a não valer a pena. Ainda que não seja privado da liberdade em sua expressão máxima, privar-se da aparição pública é o pior dos mundos.

Quando vem a condenação popular, ainda que esta não decorra de decisão judicial traduzida por prisão ou requisição de bens, o político passa a sentir no seu âmago que todo o mal feito de fato não valeu a pena. No dia em que for vaiado em aeroportos e restaurantes, no dia em que os amigos deixarem de atender a seus telefonemas, no dia em que o povo lhe virar as costas, certamente esse político irá concluir que seguiu o pior dos caminhos.

Essa é a pior punição que poderia ter recebido. É como se tivesse abdicado, pelos seus bons feitos, de passar para a História como herói.

*Roberto Dualibi é publicitário

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