O malogrado golpe na Turquia

A tarefa de Erdogan foi também facilitada pela repulsa ao golpe

O Estado de S.Paulo

21 Julho 2016 | 03h00

Desde que foi rapidamente sufocada a tentativa de golpe militar na Turquia, na sexta-feira passada – com um saldo de mais de 300 mortos –, em vez do natural e esperado alívio pela preservação do Estado de Direito, não cessam de crescer a tensão e as incertezas sobre o que de fato aconteceu ali. Uma questão que interessa ao mundo inteiro, tendo em vista a importância do país, que pela sua posição geográfica é um elemento-chave tanto nos assuntos referentes ao tumultuado Oriente Médio como nas delicadas relações entre a Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte, da qual ele é membro proeminente.

O que primeiro chamou a atenção nesse episódio foi a facilidade com que o presidente Recep Tayyip Erdogan – depois que grande parte da população atendeu a seu apelo para ir às ruas defender seu mandato – derrotou os golpistas. Logo se constatou que essa foi uma tentativa bisonha de golpe militar, num país que em passado ainda recente assistiu a operações muito bem articuladas e planejadas desse tipo. Até agora ninguém sabe ao certo quem era o líder dos golpistas e o que estes pretendiam além da derrubada pura e simples do presidente.

A tarefa de Erdogan foi também facilitada pela repulsa ao golpe tanto por parte de praticamente todas as forças políticas turcas – inclusive as que simpatizam com o clérigo muçulmano Fethullah Gülen, refugiado nos Estados Unidos e tido pelo presidente como seu principal inimigo – e da maioria das Forças Armadas como da União Europeia e do governo americano.

O que em seguida causou e continua a causar perplexidade é o comportamento de Erdogan e seu governo. Vencido o golpe, era natural – como acontece sempre nessas infelizes ocasiões – que se procurasse identificar e punir os responsáveis por esse atentado às instituições. Mas o que está fazendo Erdogan vai muito além disso, com uma agressividade que assusta seus adversários políticos – que necessariamente não se confundem com os golpistas – e deixa preocupados os países aliados da Turquia.

Estima-se que pelo menos 50 mil pessoas já foram atingidas, direta ou indiretamente, pela repressão desencadeada pelo governo. Nas palavras do presidente, que revelam qual é seu estado de ânimo, o objetivo é “limpar o vírus (do golpe) de todas as instituições do Estado”. Daquele total, cerca de 7,5 mil pessoas foram presas, entre elas 6 mil militares, 755 juízes e 100 policiais. Mais 3 mil mandados de prisão foram emitidos contra juízes e procuradores. Além disso, 8,7 mil policiais e outros funcionários do Ministério do Interior e 15 mil professores foram suspensos.

Esses números falam por si e justificam a expressão “caça às bruxas”– usada por adversários do governo – que provoca reações negativas no exterior. Ainda nessa linha, o presidente defende a aprovação pelo Parlamento de lei que restaure a pena de morte para punir sabe-se lá quantos dos milhares de presos. Como se nada disso bastasse, Erdogan passou a exigir dos Estados Unidos a extradição de Fethullah Gülen.

A seca resposta do secretário de Estado John Kerry foi de que esse pedido só será considerado se houver provas, que até agora não apareceram, de que Gülen está por trás do golpe, como afirma o presidente turco. Quanto à pena de morte, a União Europeia se apressou a advertir que ela é incompatível com a pretensão da Turquia de ser aceita na organização. E o Brasil, em nota do ministro das Relações Exteriores, José Serra, também manifestou preocupação com “relatos de cerceamento das liberdades individuais” de milhares de juízes e procuradores.

Além das dimensões da repressão em curso na Turquia, o que causa espécie e mal-estar no exterior é a sensação de que há algo estranho no golpe malogrado. Como explicar, por exemplo, que as detalhadas listas com milhares de acusados e suspeitos tenham surgido já no dia seguinte à tentativa de golpe, antes de qualquer investigação? E até agora o fato indiscutível é que o único que saiu ganhando com ele foi Erdogan, cujas tendências autoritárias não são segredo.

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