O mapa da dengue

O mapa da dengue, que acaba de ser divulgado pelo Ministério da Saúde, trouxe uma novidade alvissareira: o número de registros da doença caiu de 477,7 mil nos meses de janeiro e fevereiro do ano passado para 87,1 mil nos dois primeiros meses deste ano - uma queda de 82%. A redução dos casos graves, que estão no centro das preocupações das autoridades sanitárias, foi ainda maior: de 2.621 em 2013 para 420 em 2014, ou seja, de 84%.

O Estado de S.Paulo

22 Março 2014 | 02h05

"Mais importante que a redução dos casos e a dos casos graves é a redução da letalidade, casos que evoluíram para óbitos, que caiu 95%", comemorou o ministro da Saúde, Arthur Chioro. Em janeiro e fevereiro do ano passado, 192 pessoas morreram vitimadas pela doença. Nos dois primeiros meses deste ano, 9. A estatística positiva impressiona, mas o ministro evitou euforia no anúncio oficial. "Não podemos relaxar. Estamos no meio do ciclo. É fazer uma meia comemoração e seguir em frente", disse ele. Ocorre que 90% dos casos de dengue de qualquer ano são notificados entre janeiro e maio e, em março, faltam mais de dois meses para que o ciclo seja considerado encerrado e o risco de novas ocorrências passe para o próximo ano.

Os dados do próprio mapa dão razão à cautela das autoridades. Eles foram colhidos em 1.549 cidades submetidas ao Levantamento do Índice de Infestação por Aedes aegypti (chamado de Lira), que leva em conta o número de criadouros do agente transmissor da doença em determinado local: 476 mais do que em 2013 (983). Destas cidades, 1.046 estão em situação definida como de risco (321) ou de alerta (725). Trata-se de uma proporção alta: 72%. Apenas 413 (28%) foram consideradas pelos técnicos responsáveis pelo levantamento como tendo uma "situação satisfatória". Dos 27 Estados da Federação, 10 concentram 86% dos casos registrados nos dois primeiros meses de 2014. O Estado com o maior número de infestados foi Goiás, cujas três cidades com o total mais elevado de registros foram Goiânia, com 6.089, Luziânia, com 2.888, e Aparecida de Goiânia, com 1.838. Esses números certamente servirão de subsídios para que o alerta feito por Chioro de não relaxar no combate ao mosquito transmissor seja atendido de forma mais eficiente do que até agora.

O Lira definiu, por exemplo, os maiores focos de infestação por região. No Norte, o lixo é responsável por 52,4% dos criadouros do inseto. No Nordeste, o pouso preferido dele (75,3%) é o armazenamento impróprio de água. No Sudeste, os depósitos domiciliares respondem por 55,7% das concentrações de transmissores. No Centro-Oeste e no Sul, a maioria deles é gerada e alimentada no lixo. Essa constatação revela que o grande desafio para as autoridades sanitárias no combate à doença é o mesmo de sempre: educar a população, cujos hábitos indissociáveis de sua rotina continuam sendo os principais responsáveis pela proliferação do Aedes aegypti.

A notícia boa, segundo o Ministério da Saúde, é que esta redução atesta a melhoria dos serviços de saúde e do monitoramento da dengue. Nem todos os especialistas, contudo, concordam com esse autoelogio. O verão de 2013-2014 foi atípico por causa da estiagem, de vez que o empoçamento de água é uma das principais causas dos surtos. "Sem chuvas, o mosquito não teve chance de proliferar", disse o professor Benedito Lopes da Fonseca, da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto. O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Érico Arruda, alertou que o total de casos registrados varia muito de ano para ano. Carlos Andrade, biólogo especialista no controle da doença, da Unicamp, acha que é cedo para considerar concluído o verão da dengue. "Com o surgimento de chuvas, pode haver uma explosão de casos em duas semanas", avisou.

Se isso acontecer, três campeãs de casos estarão no centro das preocupações do governo. Belo Horizonte, com 1.647 casos, São Paulo, com 1.536, e Brasília, com 1.483, são sedes da Copa do Mundo, a ser iniciada em junho, quando o Brasil será o centro das atenções do mundo. Imagina se o mosquito ataca!

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