O mundo avança, o Brasil patina

Nada se fará sem o ajuste das contas públicas, atoladas num dos maiores déficits do mundo – próximo de 10% do PIB, incluídos os juros

O Estado de S. Paulo

23 Novembro 2016 | 02h53

A recuperação mundial continua e até ganha velocidade, apesar do comércio ainda fraco e das incertezas criadas pelo avanço do nacionalismo e do protecionismo nas maiores economias do Ocidente. O Brasil permanece como um caso especial, com baixo dinamismo, escassa perspectiva de crescimento nos próximos 12 a 24 meses e uma agenda difícil, e apenas começada, de arrumação de suas esfrangalhadas finanças públicas. No terceiro trimestre, a atividade aumentou 0,6%, em média, nos 35 associados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada majoritariamente por países avançados e alguns emergentes, como Chile, México e Turquia. O crescimento em relação ao mesmo período de 2015 foi de 1,7%, pouco acima do estimado no segundo trimestre (1,6%).

Os temores causados pelo Brexit, o abandono da União Europeia pelo Reino Unido, poderão ser justificados, talvez, a partir do próximo ano. Por enquanto, os números mostram atividade ainda mais vigorosa que a de vários outros países desenvolvidos. O avanço perdeu algum impulso, de 0,7% para 0,5% na passagem do segundo para o terceiro trimestre, mas o Produto Interno Bruto (PIB) do período de julho a setembro foi 2,3% maior que o de um ano antes. Nenhuma outra economia avançada exibiu resultado tão bom. Na potência número um, os Estados Unidos, o ritmo foi de 0,4% para 0,7%, entre os dois últimos trimestres, e a comparação anual mostrou uma expansão de 1,5%, pouco maior que o resultado médio das sete maiores nações capitalistas (1,4%).

A maior ameaça ao crescimento mundial, neste momento, continua sendo a onda protecionista criada pelo avanço dos grupos menos liberais, ou mesmo antiliberais, na União Europeia e nos Estados Unidos. A vitória de Donald Trump na eleição presidencial americana reforçou os temores manifestados na última assembleia do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Representantes do Fundo, da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Grupo dos 20 e de outras entidades multilaterais expressaram, na ocasião, preocupações quanto a mudanças no mercado global. Nos Estados Unidos, boa parte da campanha do candidato republicano foi baseada em promessas de revisão de acordos internacionais e de criação de barreiras à importação.

Na política americana, assim como na europeia, misturam-se bandeiras de proteção do mercado de trabalho, de elevação de barreiras comerciais e de combate à imigração. Grupos europeus contrários à globalização festejaram a eleição de Trump. É incerto se o novo presidente americano e seus simpatizantes europeus conseguirão deter ou reverter a integração mundial. Mas os temores serão justificáveis ainda por um bom tempo.

No Brasil, os problemas internos continuam sendo os principais motivos de inquietação, mesmo diante da insegurança internacional. O risco de maior protecionismo nas maiores potências torna mais preocupantes as condições de uma economia com baixo poder de competição. Dependente em excesso das exportações de produtos básicos, o Brasil já é ameaçado pela mera reforma econômica da China, onde o crescimento, embora ainda vigoroso, perde velocidade.

Para se tornar mais competitivo, o Brasil precisará de grandes investimentos em infraestrutura. Com enormes deficiências em logística, até o setor mais competitivo, o agronegócio, tem dificuldade crescente para disputar espaço nos mercados. Mas será preciso remover vários outros entraves, como a tributação muito ruim, o peso dos juros (agravado pela dívida pública), a ineficiência burocrática e a escassez de mão de obra capacitada.

Nada se fará sem o ajuste das contas públicas, atoladas num dos maiores déficits do mundo – próximo de 10% do PIB, incluídos os juros. Muito mais do que técnico, o grande obstáculo a esse ajuste é de natureza política. Enquanto as incertezas internas permanecem, economistas continuam rebaixando as projeções de crescimento para 2017, hoje em torno de 1%.

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