O mundo róseo do BC

Nem tudo é perfeito neste reino de prosperidade e tranquilidade econômica, mas é preciso ler com muito cuidado o novo Relatório de Inflação, divulgado na quinta-feira pelo Banco Central (BC), para encontrar algum sinal de preocupação ou de alerta. Exceto por alguns detalhes, o texto poderia ter sido impresso em papel cor-de-rosa. Segundo o relatório, a inflação cede e deve bater quase no centro da meta em 2011. As contas públicas vão bem, favorecidas pela expansão da economia, estimada em 7,3% neste ano. O buraco nas transações correntes continua aumentando, mas será facilmente coberto com o ingresso de capitais, em 2010 e no próximo ano. O descompasso entre o crescimento do gasto federal e o da receita não parece incomodar. A mudança no financiamento externo, agora mais dependente de dinheiro especulativo, aparece nas tabelas, mas não é discutida. No caso dos preços é apontado só um risco importante - mercado de trabalho aquecido e com aumentos salariais acima dos ganhos de produtividade.

, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2010 | 00h00

O exame das contas públicas é interrompido em julho, provavelmente porque os números de setembro só foram fechados há poucos dias. Chama a atenção, nessa parte, a ênfase atribuída aos ganhos de receita propiciados pelo aumento da atividade econômica. Não se dá maior atenção ao crescimento dos gastos, principalmente de custeio. Essa expansão é um dado estrutural, porque é parte da política seguida nos últimos oito anos. Essa política também compromete as finanças do próximo governo, pela criação de despesas incomprimíveis.

Também não há referência às lambanças fiscais vinculadas à transferência de recursos ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Essas práticas não só foram mantidas, mas ainda se ampliaram nos últimos dois meses. Têm produzido, entre outros efeitos negativos, a expansão da dívida bruta, mas nada disso parece muito relevante para os autores da análise. Em outros tempos maior atenção foi dada à sustentabilidade fiscal.

No exame das pressões inflacionárias é mencionada, com aparente otimismo, a expansão dos investimentos, com a consequente ampliação da capacidade instalada. Diminui, portanto, o risco do descompasso entre a demanda interna e a capacidade de oferta da economia. O relatório chama a atenção para a oferta mais apertada no mercado de trabalho. Se os salários crescerem mais do que a produtividade da mão de obra, os preços serão pressionados.

Mas o quadro geral é pintado com tons tranquilos, até porque os brasileiros podem recorrer à importação para atender à sua demanda. "As perspectivas", segundo o documento, "apontam continuidade e até mesmo intensificação dessa contribuição externa." Em outras palavras: não haverá problemas importantes à frente, se não ocorrer alguma grande surpresa. Mas essa história tem outro lado.

A "contribuição externa" ao controle da inflação tem ocorrido por meio da valorização do real e do aumento das importações. Segundo as projeções do BC, o superávit comercial ficará em US$ 15 bilhões em 2010 e cairá para US$ 11 bilhões em 2011. Foi de US$ 25,3 bilhões em 2009, quando o déficit em transações correntes chegou a US$ 24,3 bilhões. Para este ano se estima um déficit de US$ 49 bilhões. Para 2011, de US$ 60 bilhões.

Esse buraco tem sido coberto pelos ingressos da conta de capitais, mas a composição desse dinheiro está em mudança. No ano passado, o investimento direto, isto é, destinado ao setor produtivo, bastou, com folga, para compensar o déficit nas transações correntes.

Neste ano, o investimento direto líquido não deve passar de US$ 18 bilhões. Em 2011, irá a US$ 29 bilhões, pelas novas estimativas. Não será suficiente, portanto, para cobrir nem metade do rombo nas contas correntes. O resto será coberto com capitais aplicados em ações e em papéis de renda fixa - capital inseguro, porque pode sair a qualquer momento. O Brasil já dependeu de recursos voláteis em outras ocasiões. Mais de uma vez a história acabou mal. Os autores do relatório não parecem dar importância a essa lição, mesmo diante das incertezas do quadro internacional.

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