O museu escondido - II

São Paulo apresenta-se, para muitos de seus habitantes e visitantes, basicamente como uma cidade de trabalho e negócios. Mas existem nela numerosos equipamentos culturais, como teatros, cinemas e cinematecas, centros e oficinas culturais, parques temáticos e museus. São tantos os museus que sempre é possível esquecer algum.

June Locke Arruda, atual mordomo do Museu (diretoria),

26 Dezembro 2011 | 03h05

Temos aqui, por exemplo, o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o Museu de Arte Moderna (MAM), o Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP), o Museu Brasileiro de Escultura (Mube), a Pinacoteca do Estado e a Estação Pinacoteca, o Museu de Arte Sacra, o Museu do Futebol, o Museu da Língua Portuguesa. Há ainda outros, com rico acervo e acesso aos visitantes, como o do Palácio dos Bandeirantes, o da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, o da Fundação Cultural Ema Gordon Klabin, o do Instituto Itaú Cultural, o do Instituto Moreira Salles. E também o Museu da Cidade, instalado em edificações históricas, como o Solar da Marquesa de Santos, a Casa do Bandeirante, a Casa do Sertanista, a Capela do Morumbi, a Casa do Grito, o Sítio da Ressaca e as Casas Modernistas.

Universidades igualmente têm seus museus: a Fundação Armando Alvares Penteado, o Museu de Arte Brasileira; a USP, além do MAC, o Museu de Arqueologia e Etnologia, o Museu Paulista, o Museu de Zoologia...

Mas o que queremos destacar neste artigo é o "escondido" Museu da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo - instituição reconhecida por sua atividade voltada para o atendimento e o cuidado dos necessitados na área de saúde. Situada no bairro de Santa Cecília, no centro da cidade, preserva acervo documental e museológico de mais de 7 mil itens.

No quadrilátero cercado por muros atijolados, o edifício do hospital da Irmandade - cuja construção, concluída em 1884, foi obra do escritório de Ramos de Azevedo, conforme desenho do arquiteto italiano Luiz Pucci - é uma peça histórico-museológica tombada em 2007 pelo Condephaat (Secretaria de Cultura do Estado). E no centro do prédio, ao lado das salas da Provedoria, fica o museu: são manuscritos, documentos impressos, fotografias, objetos e pinturas, mobiliário de época, tanto social como médico e farmacêutico, além de esculturas e outras peças que traduzem a trajetória da multicentenária instituição, que acompanha a cidade. A predominância do acervo, porém, é de itens de sua atividade central: aparelhos, móveis, macas e instrumentos das diversas especialidades clínico-cirúrgicas e de preparação de medicamentos, entre outros.

Dentre suas peças há uma que não foi de uso médico, mas causa especial curiosidade e atenção, por seu significado histórico e social: a Roda dos Expostos. Trata-se de uma espécie de armário rotativo que ficava sobre os muros da instituição, onde eram deixadas crianças rejeitadas, que passavam a ser criadas pelas freiras. Acolhidas, eram educadas e recebiam treinamento profissional até poderem entrar na vida adulta com independência. A roda e os registros de quase 5 mil crianças são marcas inconfundíveis do museu.

Uma coleção de textos, medalhas e outros objetos utilizados pelos paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932 também lá se encontra, em razão da relação dos hospitais da Santa Casa de São Paulo com a História do nosso Estado. Há ainda retratos de ex-provedores e de outras figuras que tiveram participação na instituição, de autoria de pintores retratistas renomados, como Paulo Valle Júnior, Almeida Júnior, Benedito Calixto, Tarsila do Amaral, Castellano e outros. Associada ao Museu está a Capela da Irmandade, localizada no pátio interno do hospital, acompanhando o desenho neogótico geral das construções históricas.

Por tudo isso, o Museu da Irmandade é um centro cultural de grande interesse. Mas, embora esteja aberto ao público, a sua visitação ainda é pouco numerosa. Para atrair mais frequentadores, a fim de que possam usufruir a História, a Provedoria da Irmandade tem incentivado a Mordomia do Museu a estabelecer laços com a população da cidade e seus visitantes, para que venha a tornar-se um motor cultural da região.

Buscando criar público visitante constante e contínuo, projetos de exposições temáticas temporárias estão em andamento, livros sobre o acervo e catálogos atualizados têm sido impressos, reportagens têm sido publicadas na mídia impressa. As redes pública e privada de ensino fundamental e médio têm papel relevante na formação desse público, pois visitas às instituições culturais são itens básicos no processo de educação e formação dos jovens, conscientizam sobre a sociedade em que vivem e a necessidade de preservação do patrimônio coletivo.

Museu só tem razão de ser se for um espaço cultural, com finalidade educativa, quer nas atividades específicas, quer como entidade inserida socialmente e integrada com a população. Como a Santa Casa de Misericórdia tem história que se confunde com a da própria cidade, seu museu deve demonstrar isso.

A história institucional do Museu, todavia, é recente. Sua criação foi oficializada na gestão do provedor doutor Octávio de Mesquita Sampaio, que substituiu o médico ortopedista Waldemar de Carvalho Pinto Filho - que já planejava criá-lo, incentivado por membros da Mesa Administrativa, que coletavam materiais para preservar a história da instituição e propunham a instalação de um centro museológico. A oficialização deu-se em 2010, com a criação da Mordomia e da Capela - o primeiro mordomo foi o mesário engenheiro Augusto Carlos Ferreira Velloso e o segundo, o mesário doutor Luiz Rodrigues de Montes. Na gestão do provedor doutor Kalil Rocha Abdalla, a partir de 2008, o engenheiro Velloso retornou às atividades na Mordomia, na qual permaneceu até seu falecimento, em 2011. Atualmente, o vice-mordomo é o mesário doutor Decio Cassiani Altimari.

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