O nó do transporte público

O poder público recorre outra vez a paliativos para enfrentar o grave problema do transporte na cidade de São Paulo. O governo paulista anunciou que pagará a passagem de quem pegar ônibus no Terminal Santo Amaro (zona sul) depois de desembarcar na Estação Largo Treze da Linha 5-Lilás do metrô. O objetivo da medida é incentivar o uso do ônibus e desafogar a Linha 9-Esmeralda da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e a Linha 4-Amarela do metrô, que têm servido para que os passageiros da zona sul cheguem ao centro, já que a Linha 5 ainda passa por ampliação - ela termina no Largo Treze. A operação deve durar até a conclusão do prolongamento da Linha 5, prevista para 2015, e evidencia o cobertor curto do transporte público paulistano - para reduzir o número de passageiros num sistema metroviário ainda minúsculo para uma cidade como São Paulo, o governo transfere o fluxo de usuários para o sistema de ônibus, cuja ineficiência é patente.

O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2012 | 03h07

A necessidade da medida era evidente. Segundo a Secretaria de Transportes Metropolitanos, a Estação Santo Amaro, onde descem os passageiros que fazem a baldeação para a Linha 9, recebia 8 mil passageiros por dia há dois anos. Agora, são 160 mil. Esse crescimento se deve à abertura da Linha 4, em 2011. A Estação Pinheiros, da Linha 4, que recebe o fluxo de passageiros vindos de Santo Amaro, também ficou superlotada. Outra medida é a concessão de um desconto de R$ 0,50 na passagem de quem usar a Linha 5 ou a Linha 9 entre 9 e 10 horas, de segunda a sexta-feira. O objetivo é incentivar os passageiros a pegar o metrô ou o trem mais tarde, fora do horário de pico, que é das 7 às 9 horas. "Estamos aumentando a oferta (de linhas de metrô). Mas precisamos gerenciar a demanda", explicou o governador Geraldo Alckmin.

Além de investimento na ampliação do metrô, a melhoria do transporte passa necessariamente pela modernização do serviço de ônibus. Mais da metade dos passageiros de transporte coletivo em São Paulo usa esse meio, mas só 40% deles o aprovam, segundo a última pesquisa da SPTrans. Em 2010, 59% tinham essa opinião. A SPTrans argumenta que renovou 80% da frota desde 2005 e que esses novos ônibus são melhores e maiores.

Embora seja imprescindível oferecer ônibus modernos e confortáveis aos usuários - para que os passageiros não sejam transportados como gado, como acontece hoje -, o problema é também o da ineficiência do sistema, medida pela falta de integração entre suas linhas, pelos itinerários irracionais e pela velocidade média dos ônibus, que se arrastam pela cidade. O total de passageiros cresceu 7,6% entre 2007 e 2011, mas a frota de ônibus permaneceu praticamente a mesma no período - cerca de 15 mil veículos. Esse número seria suficiente para atender à demanda se a velocidade do deslocamento aumentasse, permitindo que os ônibus fizessem mais viagens. Para que isso acontecesse numa cidade como São Paulo, cuja saturação viária é evidente, seria necessário cumprir as reiteradas promessas de construir mais corredores de ônibus, dando a esse meio de transporte o necessário privilégio na renhida disputa por espaço nas avenidas.

Até agora, a Prefeitura de São Paulo não entregou nenhum dos 66 km de corredores de ônibus projetados para este ano. Em vez disso, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) vai criando faixas exclusivas de ônibus, que não podem ser comparadas aos corredores porque não são do lado esquerdo, que fica sempre livre. Desde 2011, foram pintados 62 km dessas faixas, e a CET anunciou que fará mais 66,45 km nos próximos três meses. Já ajuda, mas está longe de ser o ideal, para um sistema que só no ano passado transportou 2,94 bilhões de passageiros.

A ampliação do metrô é certamente um projeto inadiável, mas não pode ser vista neste momento como a panaceia do transporte público de São Paulo, porque, no ritmo em que é realizada, vai demorar muito tempo para conseguir acompanhar o vertiginoso crescimento da demanda. Desse modo, como mostrou o caso do Terminal Santo Amaro, é na melhoria da eficiência do sistema de ônibus que pode estar a chave para ajudar os demais sistemas de transporte.

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