O novo desafio de Dilma

Faça-se de conta que, ao assumir o mandato de deputado federal depois que o escândalo da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa o derrubou da Fazenda, em 2006, o ex-ministro Antonio Palocci se ocupasse em regime de dedicação exclusiva dos seus afazeres parlamentares. Suponha-se também que ele os considerasse incompatíveis com a prestação de serviços ao setor privado, tanto por razões éticas como pelo conflito de interesses que podem embutir.

, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2011 | 00h00

Imagine-se, por último, que, por não ter dependido do mercado para levar uma vida confortável, ele teria uma credencial a mais para ser o fiador, junto ao grande capital, da candidata de passado militante que Lula inventara para suceder-lhe, Dilma Rousseff, e para irrigar a sua campanha com os aportes do poder econômico. Se nada viesse a abalar esse cenário, Palocci iria para a Casa Civil da nova presidente e ali estaria hoje, acumulando atribuições recebidas e de sua própria escolha, enquanto se preparava para ser o mentor das reformas macroeconômicas que a gestão anterior deixou de fazer.

Só que a desarticulação política entre o Planalto e a sua vasta base parlamentar continuaria do tamanho que tinha no domingo, 15 de maio, quando se soube que "o Pelé do governo", como seu patrono Lula iria se referir a ele, era também um craque em fazer fortuna por meios insuspeitados - e, afinal, suspeitos. O efeito colateral do escândalo resultante foi escancarar o erro estratégico cometido de partida pela presidente, ao incumbir o seu superministro de cobrar o escanteio e correr a cabecear a bola na área, para ficar na clássica metáfora do jogo. Uma Dilma detalhista nas coisas da administração e inapetente para as coisas da política dobrou a carga de trabalho de Palocci.

Ele, por sua vez, desmentindo a sua autoavaliação como um construtor de pontes - o que creditaria, na despedida, à sua condição de libriano -, mais de uma vez deixou pendurados na linha, em sentido literal ou figurado, políticos de várias siglas, que ele sabia terem em mãos alentadas listas de compras. Ao mesmo tempo, nem sequer deixava que o colega das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, do PT gaúcho, tivesse uma chance de justificar o emprego. Com característica crueldade, passaram a chamá-lo no Congresso de "garçom", o que se limita a anotar os pedidos. Na crise, virou "ministro-por-enquanto". O esperado é que se torne ex-ministro.

O essencial, porém, é que a cozinha não funcionava. Em parte pela até louvável relutância da presidente em ceder à fisiologia, em parte pela convicção, compartilhada com Palocci, de que a sua maioria parlamentar era suficientemente extensa e leal para lhe assegurar o controle da pauta de votações e do conteúdo dos projetos. Um PMDB excepcionalmente unido e um PT tipicamente às turras implodiram a fantasia palaciana na votação do Código Florestal. O partido do vice Michel Temer derrotou Dilma até na emenda da anistia aos desmatadores, que ela considera uma abominação.

Em meio aos escombros do caso Palocci, a presidente tem o desafio de formular um modelo de articulação política adequado ao presidencialismo de coalizão brasileiro, que obriga o Executivo a uma permanente negociação com uma base parlamentar heterogênea, cujos líderes também querem cadeira cativa à mesa das decisões do governo. Trata-se de uma demanda legítima. Só no parlamentarismo, em que o Executivo é criatura do Legislativo, ela seria redundante. E há as pressões estaduais. O governador tucano do Paraná, Beto Richa, por exemplo, já aproveitou a nomeação da conterrânea Gleisi Hoffmann, do PT, para dizer que assim ficará mais fácil resolver os problemas do Estado que envolvem a União.

Se, como se vê, é uma ilusão tecnocrática imaginar uma Casa Civil apartada da política, é uma ilusão autoritária imaginar um ministro político como mero tarefeiro, desprovido de autoridade e autonomia - e a base se contentar com isso. À nova ministra não cabe tratar de nomeações, mas de projetos. Ao futuro ministro das Relações Institucionais caberá negociar com o Congresso, o que fará tanto melhor quanto mais for reconhecido - e respeitado - pelos líderes partidários como um dos seus expoentes.

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