O novo milagre econômico

Reza o ditado que milagre mesmo é algo que não existe. O que chamamos de milagre é apenas uma ordem de coisas que desconhecemos. Eu começo a acreditar que isso seja uma grande verdade, depois de abrir os jornais de anteontem. Governo Dilma sobe 1 ponto e vai a 63 pontos porcentuais - essa foi a manchete principal dos jornais de quarta-feira. Tão absurda quanto ela só mesmo o pleito da Argentina no sentido de retomar as Ilhas Malvinas. De um lado está Cristina Kirchner, empunhando um par de setes, de outro, o papa, a quem ela pede intercessão para a devolução do arquipélago. Afinal, o que Sua Santidade tem que ver com isso?

João Mellão Neto *,

22 Março 2013 | 02h11

Mas os absurdos não param por aí. O Brasil, ainda há pouco, divulgou dados relativos ao desempenho da nossa economia. E muitos desses dados são mutuamente excludentes.

A economia nacional estagnou? Isso é fato inconteste. Mas, em contrapartida, não há desemprego e o povo se mostra otimista. O crédito está barato e abundante. E no mais tudo caminha igualmente bem.

Conforme o dito popular, depois da tempestade vem a enchente. Não é esse o caso, ao menos por aqui. O céu permanece azul e nada indica uma mudança brusca de tempo.

No entanto, para além do populismo selvagem praticado em terras austrais, há algo mais que os empresários brasileiros muitíssimo temem. Não, não é a chibata, mas a inexistência de crédito - crédito do bom, sem prazo para vencer nem data para quitar.

Os amigos da corte têm acesso ilimitado a ele. Praticamente não existe risco de insolvência. Quando a situação fica negra, lá vem o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) injetar fundos a juros irrisórias, que se desfazem ao sabor da carestia. Para os demais empresários, porém, as durezas e os martírios causados pela inflação.

No caso específico brasileiro, como entender a mágica da inflação baixa mesclada com uma taxa de juros irrisória. Ela remonta a um passado não tão remoto, quando Galvêas, Pastore e, principalmente, Delfim Netto moviam os cordéis da economia e, qual czares, decretavam quem iria morrer e quem deveria sobreviver. O mecanismo para tanto era o crédito: abundante e a taxas baratas para os amigos, minguado e a taxas perversas para os inimigos. Nada muito diferente do que se observa hoje em dia. Até mesmo Delfim, o imortal, está de volta. Dizem por aí que é ele o capo di tutti capi no campo econômico. Não duvido nada que isso seja verdade.

Tanto Delfim Netto quanto Roberto Campos foram os gigantes econômicos do Brasil pós-revolucionário. Roberto Campos representava o pensamento liberal e, segundo ele próprio admitia, foi o único liberal no Brasil a exercer o poder. Já Delfim se dizia um pragmático, para quem o certo era o que dava certo. Sua volta ao centro do poder não é de surpreender ninguém suficientemente informado. Ele sempre foi o líder do pensamento econômico da Universidade de São Paulo (USP) e estabelecia com seus alunos mais promissores uma espécie de pacto de vida ou morte. Quando assumia o poder, levava-os todos com ele e os discípulos, por sua vez, faziam o mesmo com o mestre.

Ambos, Delfim Netto e Roberto Campos, tinham uma cultura muito acima da do comum dos mortais. Qual era a diferença entre eles? Bem, Roberto Campos entendia ser seu dever moral compartilhar com os seus colegas as suas antevisões. Já Delfim guardava as dele para si mesmo e alguns raros amigos. Roberto Campos, talvez como herança de sua formação seminarista, entendia que mentir era um pecado mortal. Mais pragmático, Delfim via nas inverdades um mero instrumento de trabalho.

Fui colega dos dois durante oito anos no Congresso Nacional. A minha opinião sobre eles é a seguinte: ambos tinham o mesmo nível cultural, ambos estudavam bastante e ambos mereceram ter chegado aonde chegaram. Só que Delfim tinha uma "taxa de êxito" incontavelmente maior. Ele e sua equipe só chutavam em direção ao gol e na maioria das vezes acertavam. O resultado, no entanto, era dividido escrupulosamente entre todos os que participavam da empreitada. Roberto Campos, por sua vez, nunca teve o mau hábito de recolher resultados e muito menos o de dividi-los.

Na verdade, Roberto Campos era um missionário, enquanto Delfim Netto não estava longe de ser um corsário. Roberto Campos, todos nós sabíamos, era um pregador no deserto. De Delfim, com sua famosa ojeriza das multidões, jamais as procura espontaneamente. Atribui-se a ele esta frase: "Tudo pelo povo, tudo para o povo e nada com o povo".

Mesmo quando estava errado, o fato é que Delfim ganhava todas. Pois saibam todos que ele está de volta. E ainda mais poderoso, porque agora já não precisa prestar contas a quem quer que seja.

E quem são os seus principais escudeiros? De um lado está o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que cobra a sua vassalagem à custa de um ministério, e, de outro, se encontra André Esteves, enfant terrible da economia brasileira, que sempre soube estar do lado certo na hora certa, ao menos em todas as contendas travadas no Planalto Central. Eles se reúnem, segundo se diz, ao menos uma vez por semana. Nesses almoços sigilosos são tratados todos os assuntos relativos à economia nacional e também é decidido quem vai morrer e quem vai viver dali em diante. Quanto valeria estar presente em apenas um desses banquetes?

Com isso se percebe que a economia brasileira voltou aos seus gloriosos tempos de outrora. Aqui não vencem os mais competentes, e sim os influentes. A estratégia dos "campeões nacionais'' é a maior prova disso. Hoje, quem quiser se dar bem na vida que trate de agradar a essa gente.

"Muitos serão os chamados e poucos serão os eleitos..."

* João Mellão Neto é jornalista, foi deputado, secretário e ministro de Estado.

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