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O panelaço dos números

No meio da maior recessão dos últimos 25 anos, a presidente Dilma Rousseff tem de enfrentar o panelaço dos números, muito mais estridente e condenador que o barulho de um ano atrás, quando ela discursou na comemoração do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março. Sem renunciar às bravatas, ela prometeu naquele momento uma crise passageira, com pouco sacrifício para os trabalhadores e preservação de uma economia com bons fundamentos. A maior parte de sua mensagem era falsa e só os desinformados poderiam ser convencidos pelo palavrório sem substância. Muitos desses perderam o emprego nos meses seguintes. Muitos ainda perderão em 2016. Nenhum especialista pode dizer com alguma segurança, hoje, quando a atividade e a criação de postos de trabalho voltarão a crescer de forma sustentável.

09 Março 2016 | 03h00

O Brasil, disse a presidente naquele discurso, passava “por um momento diferente”, mas “nem de longe” vivia uma crise com a dimensão apontada por “alguns”. Os fundamentos, garantiu, continuavam sólidos, e o povo estava protegido no “mais importante”, isto é, em “sua capacidade de produzir, ganhar sua renda e proteger sua família”. Não era verdade. Depois de vários anos de baixo crescimento, a recessão havia começado no ano anterior. O desemprego avançava e chegaria a 9% da força de trabalho no período entre setembro e novembro de 2015. Esse foi o número indicado pela última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, o mais amplo levantamento das condições do emprego. O quadro, tudo indica, piorou.

O Brasil, segundo ela, estava na segunda etapa da mais grave crise internacional desde a depressão iniciada em 1929. Como de costume, os erros do governo foram considerados menos importantes que os fatores externos, embora o cenário global fosse de menor gravidade que o interno. Ela ainda mencionou as consequências da seca sobre os preços, como se a inflação, no Brasil, fosse um fenômeno determinado essencialmente pela meteorologia. Para que complicar o discurso mencionando o excesso de gastos públicos e a política irresponsável de estímulo ao consumo? A seca passou, mas a inflação, como era previsível, continuou a avançar.

A crise no Brasil, assegurou a presidente, seria passageira. Afinal, o governo já havia mostrado sua competência, segundo ela, comandando a primeira reação à crise global. Como havia feito muitas vezes, ela ainda comparou o crescimento brasileiro, nos seis primeiros anos depois do início da recessão, com o dos países desenvolvidos.

A comparação, como sempre, omitia dados importantes, a começar pelo desempenho de outros emergentes e até de países da vizinhança. Alguns números bastam para mostrar a fragilidade do palavrório presidencial. Tomando-se como base o ano de 2008, início da crise, fica fácil de mostrar a inferioridade do desempenho brasileiro nos anos seguintes, até 2014.

Para simplificar, tomem-se apenas as médias aritméticas de crescimento de alguns países sul-americanos. Por esse critério, o Brasil cresceu em média 2,65% ao ano entre 2009 e o fim do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. No mesmo período, o Chile cresceu em média 3,7% ao ano; a Colômbia, 4,3%; o Peru, 5,03%; e o Paraguai, 5,13%. Os dados estão em relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) de outubro de 2015.

Mas a comparação ficou muito pior para o Brasil a partir do ano passado. Em 2015, a economia brasileira encolheu 3,8%, enquanto a dos países avançados cresceu 1,9%. Essa média inclui a expansão de 2,4% contabilizada nos Estados Unidos. Para este ano, a expectativa ainda é de crescimento na economia global, apesar de sinais de enfraquecimento e de redução das estimativas. Ainda assim, os cenários para o Brasil continuam entre os piores, com previsões de contração de pelo menos 3,5%. Enquanto isso, pioram as contas públicas e a cada dia o conserto se torna mais difícil e socialmente mais custoso. Nem escondida a presidente escapa do panelaço da economia.

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