O papel dos ex-presidentes

As incursões de Luiz Inácio Lula da Silva na vanguarda da articulação política e o visível esforço para aparecer como tutor do governo Dilma Rousseff sugerem instigante questão: qual deve ser o papel de um ex-presidente da República? A resposta comporta análise da cena política, leitura do perfil dos principais atores que atuam na peça em cartaz e projeções sobre o amanhã.

Gaudêncio Torquato, O Estado de S.Paulo

12 Junho 2011 | 00h00

A primeira observação: o projeto de poder de um ex-presidente, no nosso ambiente, não se esfumaça após dois mandatos, eis que poderá voltar ao posto, bastando cumprir um interregno de quatro anos. Situação diferente, por exemplo, dos EUA, onde o mandatário não pode exercer a presidência três vezes. Da constatação se extrai a ilação de que a presença ativa de Lula no cenário institucional tem por motivação a perspectiva de retorno futuro ao comando da Nação. Ele se esforça para dizer que ainda é o ícone maior da paisagem. E assim quer manter firmes as vigas do empreendimento vitorioso que liderou e do qual não quer se desvencilhar. Afinal, o projeto é: PT 20 ou mais anos no poder.

Acontece que a arquitetura lulista abre fissuras. A musculatura do arquiteto acaba cindindo as colunas do monumento petista. Vejamos. A presidente Dilma carece firmar a identidade, o que implica uso da autoridade e adoção de métodos condizentes com sua índole. Significa fazer escolhas, definir campos de atuação de quadros, estabelecer prioridades e firmar compromissos, até para situar diferenças de estilo entre as administrações. A decisão de afastar o ex-ministro Antônio Palocci enquadra-se nesse figurino. Mostrou atitude. Ora, Lula, com seu instinto apurado, sabe que sua presença em Brasília é evidente sinal de que continua a dar as cartas no tabuleiro. Se continuar a mostrar indícios de que "não desencarnou do poder", estará contribuindo para borrar a imagem da sucessora. Se o ex-presidente quer protegê-la, livrando-a de emboscadas que conhece tão bem - e esta parece ser a sua preocupação -, não pode escapar da quarentena que se impôs e tem como regra distância de Brasília, administração parcimoniosa de uma febril locução e imperiosa necessidade de calar mesmo se sentir coceira na língua.

Lembram-se do passado? No comando, criticando a atuação do antecessor, Fernando Henrique, Luiz Inácio dizia que "o papel de um ex-presidente é ficar quieto e não dar palpites. Só deve falar se for consultado. Todo ex-presidente tem muito telhado de vidro". E, zombeteiro, arrematava: "Ele dará uma contribuição extraordinária se souber ficar quietinho".

Não tem sido fácil para ex-mandatários cumprir a receita ao pé da letra, seja pela polarização nacional entre PT e PSDB, que lembra os velhos tempos de UDN e PSD, seja pela competição de outros entes partidários, todos pleiteando fatias gordas no banquete do poder. O sociólogo FHC, como scholar, escolheu o papel de conselheiro, formulador, ideólogo principal dos tucanos, mas não abdica do exercício de fustigar o ex-metalúrgico. José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco buscaram no Senado o espaço ideal para permanecer na política. Na Câmara Alta, que tem a função de representar os Estados, encontraram adereços compatíveis com a liturgia que emoldura a figura de ex-presidentes, teoricamente próximos às virtudes que Bacon enxergava no perfil do juiz: reverência, circunspecção, instrução, cuidados com as palavras. Se tão elevado escopo se esvai no Senado, a razão é óbvia: a degradação política já alcançou os portais da Casa.

E onde se insere Luiz Inácio? Numa estampa diferente de outras. Ele não quer pendurar as chuteiras tão cedo. E mais: tem a convicção de que seu carisma o fará chegar às portas do infinito. Mais que outros ex-presidentes - Juscelino Kubitschek ansiava voltar à Presidência -, Lula parece disposto à tarefa de pavimentar o regresso. É como se interpreta a intensa movimentação no circuito político. E seu projeto de "vender" ao Continente Africano (e, quiçá, a outras praças) a teia social que construiu no seu ciclo? Dilui-se nas nuvens. Não queria fazer de seu instituto um laboratório do pensamento nacional? O périplo de Lula mundo afora, pelo que se conhece, é um roteiro de palestras (bem remuneradas), e não de resgate das margens sociais. Até porque esse tipo de missão não combina com o modus faciendi de exposições passageiras a audiências seletas. Exige a permanência do idealista por longo período nos territórios devastados pelas carências. Que mais restaria a Lula? Ora, um portentoso empreendimento na diplomacia mundial. Por que não um articulador da paz e do diálogo entre nações, da integração de povos pela boa vontade dos mandatários, do qual é exemplo o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter? De Cuba à Venezuela, passando pelo Oriente Médio, Carter tem dado mostras, como embaixador itinerante dos EUA, das relevantes funções que podem ocupar um ex-mandatário nacional.

Se afasta tais hipóteses para ser o comandante de guerras eleitorais, a partir da próxima, em 2012, quando o PT lutará para eleger o maior conjunto de prefeitos de toda a História brasileira, conforme tem pregado, Luiz Inácio corre o risco de cair na vala comum da banalização política, antecipar as fases da vida política da presidente Dilma e comprometer seu próprio projeto. Não há carisma que resista à lama da politicagem. O atoleiro começa pelo uso destemperado do verbo e pela transformação das ruas em palanque. Lula talvez não saiba, mas o título de "melhor ex-presidente do Brasil" pertence ao velho marechal Eurico Gaspar Dutra, homem pacato, de vida simples, afamado por economizar palavras. Recitava: "As palavras não foram feitas para serem gastas". Um dia foram entrevistá-lo como ex-presidente. Recebeu o repórter: "O senhor trouxer o saca-rolha? Para me entrevistar é preciso saca-rolha, pois do contrário não sai nada. Fotografia pode. Sempre apreciei as cenas mudas". Que tempos aqueles: sóbrios, altaneiros e cívicos.

JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP, É CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO

TWITTER: @GAUDTORQUATO

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