O paradoxo Dilma

O primeiro ano do governo Dilma Rousseff se constituiu num importante paradoxo: a agenda política preponderante foi a da corrupção, tanto é que nada menos que sete ministros foram afastados em consequência de denúncias. A rigor, isso poderia provocar uma crise permanente em qualquer governo. No governo Dilma, no entanto, não se pode dizer que esse processo tenha resultado em crise de governo ou política. A própria presidente deveria ter arcado com um desgaste político por ter nomeado ministros que não se mostraram probos. Dilma, no entanto, terminou seu primeiro ano com um recorde de aprovação popular, superando os presidentes anteriores.

O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2012 | 03h05

Algumas razões explicam esse paradoxo. A primeira diz respeito ao perfil político que a presidente construiu. Havia o temor de que Dilma, por nunca ter exercido um cargo político eletivo, não se constituísse como personalidade política própria e agisse sob a tutela do ex-presidente Lula e controlada pelo PT. Dilma superou esse problema com surpreendente facilidade. Hoje tem personalidade política própria, que lhe confere a projeção de uma liderança autônoma, capaz de deliberar e decidir pela sua vontade no que diz respeito ao exercício do governo.

A segunda razão se refere a como Dilma lidou com os problemas da corrupção. Mesmo sendo responsável direta pela nomeação dos ministros afastados, ela conseguiu isentar-se de desgastes e de imputações negativas, por dois fatores: 1) A opinião pública deu-lhe crédito, supondo que o Ministério do primeiro ano de mandato não foi composto plenamente pela sua vontade, mas em decorrência dos arranjos que a elegeram; 2) de uma forma ou de outra, Dilma firmou uma avaliação na opinião pública de que não é conivente com a corrupção. Este fator fez a presidente ampliar seu leque de apoio em setores das classes médias mais exigentes com o tema da moralidade pública.

Dilma, possivelmente, ampliou o leque de apoio em estratos mais conservadores também por outra razão. Ao enviar a carta por ocasião do 80.º aniversário do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ela conseguiu desanuviar e distensionar as relações, no jogo político, entre governo e oposição. A tese da herança maldita deixada por FHC foi posta de lado em nome de uma perspectiva mais construtiva com vista ao futuro. Claro que tal perspectiva não pode anular a exigência de uma oposição ativa. E, diga-se de passagem, se a oposição não exerce papel mais ativo, não se deve à distensão, mas à crise e à desorientação dos partidos oposicionistas. Além disso, o reconhecimento do papel de FHC tem a dimensão de um reparo histórico. Alguém do PT precisava fazer esse reparo. Se não foi o ex-presidente Lula, que tenha sido, então, Dilma. E isso foi bem feito.

A quarta razão, e talvez a mais importante, para o bom desempenho de Dilma diz respeito à economia. À medida que 2011 foi avançando para seu final, foi ficando claro que a crise europeia não afetaria de forma mais significativa a economia brasileira. A inflação manteve-se dentro da meta, o poder de compra foi pouco afetado e o emprego continuou em alta. Dessa forma, a virada do ano foi marcada por otimismo do consumidor em relação a 2012.

Dito isto, é preciso observar que a avaliação positiva do governo não é um ativo estocável para o resto do mandato. As avaliações estarão sempre suscetíveis às variações das ações dos atores políticos, econômicos e sociais, às circunstâncias e às contingências que lhes são inerentes. Em que pese a boa avaliação, não significa que o governo não tenha problemas. E talvez um dos problemas importantes resida justamente onde Dilma procura diferenciar-se: a eficiência gerencial. Embora técnicas de gestão privada possam ser adaptadas ao setor público, é preciso ter presente que a esfera governamental tem natureza distinta da do setor privado.

O excessivo controle imposto por Dilma às ações governamentais fez do seu Ministério um Ministério apagado. Dilma está certa ao não permitir a existência de um superministro porque este poderia projetar-lhe sombra, além de outros inconvenientes. Mas o fato é que o governo se vem mostrando lento. Uma das causas dessa lentidão diz respeito ao excessivo controle presidencial sobre os ministros e ao baixo grau de autonomia que estes têm na implementação de projetos. De modo geral, governantes hipercentralizadores denotam uma ou as duas das seguintes características: ou são autoritários ou são inseguros. Se Dilma foge dessas características, então se pode supor que ela não confia em seus ministros. Neste caso, cabe fazer uma reforma ministerial nomeando ministros probos e competentes. E a presidente deveria estabelecer o equilíbrio entre o necessário controle e a pertinente autonomia na ação dos ministros.

Em relação ao ex-presidente Lula, embora haja uma continuidade em termos de governo, o perfil de Dilma é bem diferente. Dilma adota um processo decisório mais racional e, portanto, mais cauteloso. Lula agia mais pela impetuosidade, pela intuição inata aos líderes carismáticos e pela sensibilidade social que movia muitas de suas decisões políticas. Tinha um estilo mais ousado do governar. Para dizer qual dos estilos melhor convém ao Brasil, tendo em vista o presente e as tendências do futuro, seria necessário processar uma análise dos desafios e urgências que se apresentam para o País neste momento. Os dois estilos, se forem prudentes e consoantes com as necessidades do tempo, podem produzir bons resultados. Mas se a ousadia traz maior risco de desmedida, a cautela pode-se traduzir na improdutividade de resultados. No caso de Dilma, a cautela, que se supõe pretender também uma rearrumação administrativa do Estado, produziria melhores resultados se encaminhasse as reformas sempre adiadas e cada vez mais necessárias.      

 

 

ALDO FORNAZIERI, DIRETOR ACADÊMICO DA FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA, POLÍTICA DE SÃO PAULO (FESPSP)

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