O pensamento positivo de Dilma

A presidente Dilma Rousseff parece acreditar que, para um projeto de seu governo se tornar realidade, basta anunciá-lo diversas vezes. É o caso da terceira fase do Minha Casa, Minha Vida.

O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2015 | 03h00

“Boa notícia!”, exclamou Dilma em sua conta no Twitter, ao dizer que o lançamento da nova etapa está marcado para 10 de setembro. Será preciso ver para crer, pois, como lembrou reportagem do Estado, trata-se da quinta data diferente anunciada por Dilma para o Minha Casa, Minha Vida 3.

Em 21 de maio de 2014, quando já estava em plena campanha por sua reeleição, Dilma informou ao distinto público que o relançamento do programa estava previsto “precisamente” para o dia 29 daquele mês. A data inicialmente estabelecida era junho, mas a presidente disse que resolveu “antecipar” o lançamento para, vejam só, permitir um melhor planejamento por parte dos investidores.

Na ocasião, a plateia, formada basicamente por empresários da construção, ouviu a garantia de que o programa não só seguiria adiante, como seria “melhorado”. E a presidente aproveitou para fazer terrorismo – a marca de sua campanha – ao dizer que “aqueles que prometeram fazer arranjos ou tomar decisões impopulares” – isto é, a oposição – iriam prejudicar o programa caso vencessem a eleição.

O dia 29 de maio passou, o mês de junho também passou e veio o dia 3 de julho, quando Dilma tornou a anunciar a terceira fase do Minha Casa, a ser lançada em algum momento do início de 2015.

Dilma ganhou a eleição e esperou até 25 de fevereiro para anunciar que a nova etapa do programa seria lançada em março. Parecia que finalmente ela cumpriria alguma de suas promessas de campanha, mas o mês de março também passou – e nada.

Em junho último, a presidente garantiu que o Minha Casa, Minha Vida 3 seria lançado “no inicinho de agosto”. Eis que estamos em agosto, e agora Dilma promete que o lançamento será em setembro. Decerto ela está esperando que até lá se realize o milagre da multiplicação das verbas, contingenciadas para fazer frente às lambanças de sua administração ao longo dos últimos quatro anos. O Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, perderá cerca de R$ 7 bilhões de seus investimentos previstos para este ano, apesar de ser hoje a principal vitrine do governo.

Os empresários da construção civil que se aventuraram a acreditar na palavra de Dilma e ergueram as casas do programa estão às voltas com atrasos nos repasses e com muitas incertezas – a maior das quais diz respeito à credibilidade da própria presidente da República. Pode-se dizer que, hoje, os seguidos anúncios de Dilma sobre a continuidade do programa servem apenas para tentar acalmar os empresários, às voltas com dívidas e demissões em razão do calote do governo.

Segundo Dilma repete desde o ano passado, a terceira fase vai contratar mais 3 milhões de casas até 2018 – e esta é a única definição sobre a continuidade do programa. Também se sabe que, até colocar seus pagamentos em dia, o governo vai manter suspensas as contratações de imóveis para a faixa 1 do programa, justamente as famílias mais pobres, com renda familiar de até R$ 1,6 mil. As poucas casas recebidas por essa faixa neste ano dizem respeito a imóveis que deveriam ter sido entregues em 2014. As demais faixas de renda só continuam a receber suas casas porque, para elas, há financiamento do FGTS.

Dados oficiais mostram que o governo não cumpriu a promessa de entregar 350 mil novas casas no primeiro semestre. E a tormenta mal começou. “Hoje, o governo tem dificuldade de pagar o que já foi contratado. Não tem como contratar mais”, explica o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, José Carlos Martins. Essa é, pois, a realidade, que Dilma insiste em negar.

Esteio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Minha Casa tornou-se, para Dilma, uma espécie de última fronteira antes do fracasso completo do governo mais impopular desde a redemocratização do País. As cinco datas diferentes para o lançamento da nova fase do programa, que ninguém sabe dizer se é mesmo para valer, parecem indicar que essa fronteira já foi superada.

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