O PIB no final de 2017 e em 2018

Economia vai muito mal e pede candidatos realmente capazes de recuperá-la

*Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2017 | 03h04

Economistas convencionaram que se o produto interno bruto (PIB) cai em dois trimestres consecutivos, isso caracteriza uma recessão, que se pode ampliar ou não. E que se ele volta a subir em dois trimestres também consecutivos, a recessão se encerra.

Em 2017 o PIB brasileiro cresceu no primeiro trimestre (1,3%) e no segundo (0,7%), marcando o fim da forte recessão que se estendeu pelos oito trimestres de 2015 e 2016. Ela levou o PIB a uma queda total de 6,9% nesse período, e com isso ele voltou ao valor que tinha no final de 2010, aí permanecendo em média parado por seis anos (!). No terceiro trimestre de 2017 também veio taxa positiva (0,1%).

Essas taxas positivas são obviamente insuficientes para tirar nosso PIB do buraco em que caiu no biênio 2015-2016 por obra e desgraça da ex-presidente Dilma Rousseff. Nesse andar da carruagem, espera-se que o PIB cresça em 2017 a uma taxa anual perto de 1%. Menos mal que as quedas de 3,5% em 2015 e 2016, mas esse 1% ainda nos mantém lá atrás na corrida mundial do crescimento econômico. Nela se espera em 2017, conforme previsões recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI), um aumento de 3,6% do PIB mundial, e há países onde a taxa esperada é várias vezes a nossa, como a China (6,8%) e a Índia (6,7%).

No final de 2016 já havia razões que levariam o PIB brasileiro a passar a essa taxinha em 2017. Entre elas, a perspectiva de boa safra agrícola, a da inflação em queda – o que amplia o ganho real médio entre reajustes de salários corrigidos anualmente pela maior inflação passada – e melhores índices de confiança de consumidores e empresários, após a demissão por justa causa da ex-presidente Dilma, em 2016. Essa confiança tem grande importância nas decisões de consumir e investir e, assim, na evolução do PIB.

Nessa linha, atores do mercado financeiro, consultados pelo Banco Central para elaborar seu boletim semanal de expectativas, estimavam, em 30 de dezembro de 2016, que o PIB de 2017 aumentaria 0,5%. Na edição de sexta-feira passada, esse boletim previa 0,9%, quase o dobro dessa outra estimativa e bem próxima da de 1% já citada. Essa alta se deu porque ao longo de 2017 os mencionados fatores vieram até melhores. A safra agrícola foi recorde, a inflação anual caiu à metade, a confiança na economia melhorou ainda mais e houve outros estímulos, como a liberação de contas inativas do FGTS.

Para 2018 a previsão do mesmo boletim para o aumento do PIB era de 2,6%, que também não é grande coisa, pois mesmo se vier e se repetir só tiraria a economia do buraco em 2020. Analistas que apostam nessa taxa ou noutra perto dela em 2017 se apoiam na evolução de vários indicadores, como a expansão da renda e do consumo das famílias, do seu recurso ao crédito e a melhor evolução do comércio, da indústria, dos serviços e do desemprego nos meses mais recentes.

Mas há fatores que atuarão em contrário em 2018 e que vêm sendo negligenciados. Entre eles a expectativa de uma safra agrícola menor, com as primeiras estimativas do IBGE apontando queda de 8,9% na de grãos. E há sempre a incerteza quanto a chuvas adequadas. Além do mais, não se espera que a inflação continue a cair. Ao contrário, a expectativa é que o IPCA suba de 3% em 2017 para 4% em 2018, com o que o referido ganho de renda real devido à queda da inflação deixará de ocorrer, e numa pequena parte será até revertido.

E mais: com a eleição presidencial em 2018, ventos do lado político deverão ter, para o bem ou para o mal, uma influência bem maior na economia do que em 2017. Se o pleito de fato caminhar para a opção entre Lula e Bolsonaro, pelo menos num primeiro estágio a confiança de empresários e consumidores será abalada. Provavelmente viriam novas versões da Carta aos Brasileiros que Lula divulgou em junho de 2002 para acalmar o mercado financeiro. Mas agora ele teria de cometer um estelionato eleitoral, pois como candidato vem pregando a revogação de medidas de ajuste fiscal e da reforma trabalhista, além de atacar a reforma da Previdência Social. Bolsonaro, imprevisível, permanece como incógnita, embora “namorando” um economista liberal para cuidar da economia e gerar confiança numa boa gestão dela, se eleito. Outra incerteza é quanto ao Congresso Nacional que virá das próximas eleições.

Implicações econômicas favoráveis poderão também vir do impedimento jurídico de Lula como candidato. Ou do surgimento de um candidato centrista com efetivas chances de ser eleito e de dar sequência a ajustes e reformas indispensáveis para que a economia saia mais rapidamente do buraco onde está e, já na superfície, siga uma trajetória de crescimento condizente com as necessidades do País.

Assim, prever a variação do PIB no ano seguinte foi muito mais fácil no final de 2016 do que agora, no final de 2017. Hoje as previsões têm suas próprias fragilidades, além de fortes condicionantes políticos que podem aumentar a sua volatilidade. Em qualquer caso, elas são detalhes de uma constatação irrefutável. A economia do País está muito mal e precisa crescer bem mais do que apontam as previsões mais otimistas. E olhando pelo retrovisor, há quase quatro décadas não cresce, em média, a taxas satisfatórias.

Há perto de dez candidatos presidenciais, mas até aqui não vieram ideias claras do que pretendem fazer no que diz respeito à economia. Sem que ela melhore substancialmente, não haverá recursos tributários para aliviar de modo efetivo os problemas em que candidatos usualmente focam suas promessas, como segurança, saúde, educação, assistência social e outros mais.

Embora reconheça meu viés de economista, entendo que todo cidadão deveria perguntar aos candidatos em geral, inclusive para o Legislativo: quem se dispõe a encarar seriamente as carências da economia? E o que se pretende fazer?

*Economista (UFMG, USP e Harvard), é consultor econômico e de ensino superior

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