O Plano Real numa perspectiva histórica

Ao completar 20 anos, o Plano Real não tem despertado todo o interesse que o episódio merece. A polarização nacional PSDB-PT gerou uma disputa narrativa, cada qual amplificando seus méritos e apagando os do adversário. A narrativa prevalecente (petista) tende a minimizar a importância do plano. Do que se trata, afinal? Em poucas palavras, em 1993 a inflação atingia 2.851%. Contraste-se esse valor com a inflação média do governo Fernando Henrique Cardoso (12,6%) e do governo Lula (6,3%) para entender a importância do tema.

Saulo Said*, O Estado de S.Paulo

25 Março 2014 | 02h05

Analisando o Índice Geral de Preços (disponibilidade interna) desde 1946, podemos enquadrar o tema dentro de uma perspectiva histórica ampliada. No pós-guerra, os preços estiveram sob controle até meados do governo Juscelino Kubitschek. A partir de 1958 iniciou-se uma escalada inflacionária, com índices anuais superiores a 30% e subindo rapidamente depois de 1960. O auge dessa escalada se deu em 1964, quando a inflação atingiu 86%. O plano de estabilização do governo Castelo Branco conseguiu reduzir o índice paulatinamente, até atingir 24% em 1967. O índice estabilizou-se nessa patamar até o fim do governo Médici. Sob Geisel, os preços voltaram a subir, com o quadro se agravando a partir de 1979. Entretanto, enquanto a economia crescia, a inflação (mesmo alta) era tratada como secundária.

No governo Figueiredo a inflação alta dava sinais de que tinha vindo para ficar. O menor índice registrado no período foi de 94% (em 1981). Apesar de uma breve esperança no início do Plano Cruzado, a inflação voltou com força total. Entre 1987 e 1993 os brasileiros foram apresentados ao monstro da hiperinflação. Em sete anos a inflação ultrapassou os 1.000% cinco vezes!

A inflação era prejudicial a todos os setores da sociedade, sendo os mais pobres os mais afetados. Nenhuma medida foi tão drástica na redução da pobreza e da extrema pobreza como o Plano Real. (Por drástica me refiro à velocidade das mudanças.) Entre 1993 e 1995 a proporção de famílias pobres e extremamente pobres caiu de 51% para 39%!

Em cinco décadas, economistas irresponsáveis ou políticos sem a devida convicção fizeram do Brasil um tubo de ensaio para as teses mais esdrúxulas de combate à inflação. Planos ortodoxos foram abandonados pela metade. JK abandonou o plano de estabilização da dupla Lucas Lopes e Roberto Campos em 1959, percebendo que desaceleraria o crescimento. A bola de neve inflacionária cairia no colo de João Goulart, quando a inflação atingiu o pico do período - 86% - e minava o próprio crescimento econômico. Também Jango abandonou planos mais ou menos ortodoxos elaborados por Celso Furtado e, mais tarde, por Carvalho Pinto, quando os primeiros sinais de impopularidade apareceram. Os trabalhadores não aceitavam o congelamento de salários e os empresários não aceitavam o fim da mamata de empréstimos do Banco do Brasil. Somente Castelo Branco, blindado politicamente por uma ditadura, se emprenharia no combate à inflação sem se preocupar com a popularidade. A partir do governo Geisel o descaso com a alta dos preços enraizou uma cultura inflacionária, forte obstáculo à estabilização.

Nos anos 1980 e 1990, a falta de coragem de governos somou-se ao populismo e a planos econômicos semiamadores. Medidas vexatórias como o controle de preços, programas como "os fiscais do Sarney" e as constantes substituições da moeda fizeram do Brasil uma piada internacional. Sobre o confisco da poupança no governo Fernando Collor - segundo a piada - Fidel Castro teria dito: "Nossa, nem eu cheguei a esse ponto!".

Mesmo o crescimento sustentável era impossível com a inflação. Em meio século o Brasil viveu dois ciclos de alto crescimento: os anos JK e o "milagre econômico". Ambos conviveram com a inflação alta e, no momento em que ela se tornava altíssima, também se dava a estagnação duradoura. Isso ocorre porque, no médio prazo, a subida dos preços mina a capacidade de investimentos. Os empresários nacionais não conseguem planejar-se porque custos e retornos são altamente incertos. Empréstimos externos eram feitos em moeda estrangeira e, ocorrendo desvalorizações cambiais, as dívidas se multiplicavam, forçando muitas vezes a moratória. Os empréstimos futuros, precificando o risco de calotes, já vinham mais caros.

O sucesso do Plano Real deve-se a dois fatores: coragem e transparência. Fernando Henrique Cardoso é um sociólogo da velha-guarda uspiana; em matéria econômica, não era propriamente um especialista. Seu mérito foi comunicar as etapas do plano tanto à classe política como à população - ambas ressabiadas com os fracassos anteriores -, inspirando entusiasmo e confiança. Em certo sentido, planos anti-inflacionários são profecias autorrealizáveis. (Isto é, funcionam se as pessoas acreditarem que vão funcionar.) Do outro lado, uma equipe econômica qualificada promovia uma política ortodoxa (o feijão com arroz), desativando os gatilhos inflacionários, controlando as contas do governo e freando a expansão monetária por meio da taxa Selic.

O resultado do Plano Real, embora se tenham tornado rotina, deve ser comemorado. Entre 1993 e 2011 a soma da população pobre e extremamente pobre no Brasil despencou de 51% para 19%. A maior parte dessa queda se deu no decorrer do governo Lula, graças ao crescimento econômico (com geração de empregos formais, valorização do salário mínimo, etc.) e ao programa Bolsa Família. Porém também é verdade que a estabilidade econômica é o único solo fértil para a implementação de boas políticas, tanto na área econômica como na área social.

*Saulo Said é graduado em história pela Universidade de Brasília, é mestre em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).

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