O próximo risco global

Após os excessos da década passada e a crise global de 2007/2008, a economia mundial tem enfrentado crises em sequência. Os problemas na Europa não acabaram e já vislumbramos a próxima crise: pânico com o possível impacto da forte contração fiscal contratada nos EUA. É o já denominado "abismo fiscal" (fiscal cliff).

Ilan Goldfajn,

02 Outubro 2012 | 03h05

Diversos incentivos fiscais do passado - cortes de impostos, benefícios de bem-estar social - terminam até 31 de dezembro deste ano. E novos cortes de gastos serão ativados automaticamente no ano que vem se não houver acordo político para reduzir o déficit ao longo da próxima década. Juntos, esses ajustes fiscais equivalem a um impacto de 3,6% do produto interno bruto (PIB) e têm potencial para provocar uma recessão nos EUA e no mundo, por consequência. No pior caso, se todo o abismo fiscal se materializar, os EUA podem voltar à recessão, com o PIB se contraindo 0,3% no ano que vem.

O presidente Barack Obama e o Congresso estão preocupados, tentando negociar algumas prorrogações. Parte desses estímulos deve, de fato, ser prorrogada. Mas republicanos e democratas têm programas fiscais diferentes e pouco incentivo para ceder antes da eleição presidencial em 6 de novembro. E mesmo após a votação os partidos podem não chegar a um acordo.

Por enquanto, a sensação é de anestesia geral. O Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, tem administrado doses altas e crescentes de "medicamentos" (os chamados QEs - compras de títulos tóxicos do mercado). O paciente (economia) sente-se bem. Não está exuberante, mas certamente não se encontra deprimido.

Muitos dizem que o motivo é que a economia dos EUA é dinâmica, reinventa-se continuamente e resolve os problemas de imediato, para voltar a crescer. E têm razão, normalmente.

Mesmo no caso atual, o ajuste ocorreu de certa forma. Após a crise do subprime e do Lehman Brothers, houve a necessidade de reduzir o excesso de endividamento, acumulado em razão de gastos excessivos, fruto da falsa percepção de maior riqueza. E, de fato, o setor privado - tanto as empresas quanto os indivíduos - avançou bastante nesse quesito.

As empresas foram as primeiras a reduzir o endividamento. Os balanços de bancos e empresas já se encontram saudáveis depois do pagamento acelerado das dívidas.

Os indivíduos finalmente elevaram a taxa de poupança, após anos de gastança, e também vêm pagando suas dívidas. A grande dívida das famílias sempre foi imobiliária. Para honrá-la houve retração do consumidor, menos casas vendidas, aumento de estoques, queda livre dos preços dos imóveis e queda forte na construção de novas casas. O impacto no PIB não foi pequeno. Mas, recentemente, os preços dos imóveis enfim se estabilizaram, o estoque de imóveis à venda reduziu-se e a demanda começa a dar sinais de vida. O setor imobiliário nos EUA está dando sinais de vida e a economia agradece.

O problema é que simultâneo à queda do endividamento no setor privado ocorreu um correspondente aumento da dívida do setor público. O estoque da dívida pública aumentou para 103% do PIB, enquanto o déficit público ainda ronda os 9,5% do PIB.

Parte dessa transferência de dívidas se deu de forma direta. O Fed aumentou o seu balanço de forma significativa e pouco usual, resultado das compras de ativos - muitas vezes denominados "tóxicos" por serem indesejados - que estavam em poder do setor privado.

Com isso o Fed logrou evitar uma deflação, que poderia tornar a saída da crise mais complicada. O desemprego continua elevado, mas nada comparável ao que se seguiu à crise de 1929.

O ajuste da dívida do setor público - recentemente elevada - ainda está por ser feito. E há incertezas no processo. Por enquanto não existem dúvidas quanto à capacidade do governo de honrar suas dívidas. Mas será o Fed capaz de reduzir o seu balanço suavemente no futuro? Há risco de uma inflação mais elevada no longo prazo, com todos os problemas que acarreta, mas que acabe reduzindo o valor das dívidas.

Enquanto o ajuste do setor público não ocorrer, não podemos afirmar que o processo de desalavancagem (redução das dívidas) - que prepararia as bases do recomeço - da economia americana como um todo está sucedendo. Enquanto isso, o crescimento deverá ser baixo e o risco de recessão permanece. O abismo fiscal é mais uma manifestação desse problema.

Estimo que, no final, a maioria dos estímulos fiscais seja renovada, com "apenas" um terço das medidas expirando e gerando uma contração fiscal equivalente a 1,2% do PIB. O Fed tentará contrabalançar esse choque fiscal negativo com seu novo estimulo monetário - comprará US$ 40 bilhões por mês de títulos ligados a hipotecas e manterá o juro básico em zero. Mas dificilmente conseguirá evitar crescimento do PIB um pouco abaixo de 2% no ano que vem. O impulso monetário tem limites na sua capacidade de estimular a economia.

Apesar de o epicentro inicial da crise ter sido nos EUA (estouro em 2007 com a bolha das hipotecas subprime, que rapidamente se espalhou para o resto do sistema financeiro nos EUA e no resto do mundo), ela passou os últimos dois anos concentrada na zona do euro. Certamente, o excesso de gastos e de endividamento dos países periféricos é o fator predominante do problema. Mas a camisa de força imposta pela moeda única teve papel fundamental. A incapacidade política do Banco Central Europeu de suavizar a desalavancagem das economias endividadas - ao contrário do Fed e dos outros bancos centrais - por meio de programas de compras tornou a situação mais aguda na zona do euro. Mas a necessidade de ajustar as economias a uma dívida muito elevada é um problema comum a vários países, inclusive aos EUA.

O susto está encomendado para o final do ano. Há risco de falta de consenso político depois das eleições norte-americanas. No fim, esperamos que a racionalidade prevaleça e a queda no abismo fiscal seja evitada.

* ECONOMISTA-CHEFE DO ITAÚ, UNIBANCO E SÓCIO DO ITAÚ BBA

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