O PT cinza sobre cinza

Luiz Inácio da Silva retoma o vocábulo “utopia”, termo importante da cultura política. Ele a prescreve aos petistas como antídoto contra o poder abusivo e a caça venal de dinheiro ou cargos.

Roberto Romano, O Estado de S. Paulo

04 Julho 2015 | 03h00

A palavra não foi aceita pelos que negam as teses de Saint-Simon, Proudhon e outros. Em vez dos sonhos, chegou a “ciência” do materialismo histórico e dialético, na cartilha de Stalin. Mas hereges do marxismo saíram da prisão intelectual e volitiva edificada pelo Kremlin. É o caso de Ernst Bloch no livro O Princípio Esperança (1938-1959).

Ao publicá-lo Bloch desafia o partido, é condenado como “reacionário” e sai da Alemanha comunista quando surge o Muro de Berlim. Na revisão do texto, em 1959, todos conhecem os crimes revelados por Nikita Khruchev. O combate ao realismo se transforma, em Bloch, na reflexão sobre a decadência do partido e a busca de nova esperança utópica. Mas, segundo G. Lukács, ao percebermos um desastre, nada podemos fazer, pois a consciência é posterior aos eventos. Lukács assume a versão conformista do enunciado hegeliano sobre a coruja, cujo voo ocorre no crepúsculo.

Com base na Doutrina das Cores elaborada por Goethe, Hegel enuncia o entardecer humano de modo poético, mas impiedoso: “Quando a filosofia pinta seu cinza sobre cinza, uma forma da vida envelheceu e ela não se deixa rejuvenescer com cinza sobre cinza, mas apenas conhecer. O pássaro de Minerva só levanta voo ao cair da noite”.

Além da Doutrina das Cores, Hegel recorda os versos do Fausto: “Cinza, amigo, é toda teoria/ Verde o arbusto áureo da vida”.

Mas por que recordar a filosofia e o lamento poético, ao ler a chã mensagem do ex-presidente ao seu partido? Não seria exagero gastar vela de libra com um organismo não só gasto, mas em dissolução? Vejamos o saber ético e filosófico, desprezado pelos maquiavéis nacionais de todas as cepas.

A lição de Hegel aplica-se ao PT: de nada servem mezinhas caseiras para dar vida nova a instituições peremptas. O próprio Estado brasileiro há muito tempo está no leito, à espera do traspasse. Corpo firmado no útero absolutista, o poder político nacional engorda a expensas da cidadania que sobrevive nos municípios. O inchaço das suas veias causou intervenções drásticas e tirânicas no século 20, a ditadura Vargas (que proclama Novo o antigo doente) e a de 1964 (a “Redentora”). Depois, as sangrias dos “planos econômicos” que nada mudam nas condições do corpo estatal.

Ao contrário: eles pioram as mazelas ao carrear mais banha para Brasília, coração do poder, o que gera novas hemorragias corruptas. 

Usar a utopia, como o faz Luiz Inácio da Silva, é pintar cinza sobre cinza. Pior: na versão hegeliana o espírito envelhecido chega à sapiência. Nos discursos de vários líderes petistas há uma dupla regressão: aumenta a decrepitude partidária, mas cresce o infantilismo lógico. Políticos quase senis usam técnicas da creche para justificar o injustificável. Quando há marotagem, nunca são eles os responsáveis, mas os irmãos ou colegas, os demais partidos. E quando não têm saída, gritam: “Aprendemos a molecagem com eles”.

Utópica, no Brasil, seria a esperança de mudar o sistema político. Em vez do império presidencial, a partilha dos poderes para levar a sério a autonomia dos entes subordinados, como define a Constituição de 1988. Em troca de impostos nas derramas, e seu envio direto para a Fazenda e o Planejamento, haveria a distribuição das verbas pelos Estados e municípios, sem o toma lá dá cá. Em vez da concentração intolerável que rege as políticas públicas, controladas pelo governo federal, a partilha das mesmas políticas pelas regiões, sem burocracias geradoras de atos corruptos. Contra os privilégios usufruídos pelos gestores dos três Poderes, o fim de cargos, veículos, motoristas, gasolina, moradias e demais benesses principescas. E, sobretudo, a democratização da sociedade em prol dos “negativamente privilegiados” (Max Weber), fechando-se a torneira para os que usam bens oficiais como sua propriedade e “doam” milhões para campanhas eleitorais.

Aí estão alguns itens da política utópica que renovaria o Partido dos Trabalhadores, dando-lhe alento para encarar a senectude. Mas em 12 anos de poder nenhum ponto da agenda foi tocado com vigor pela agremiação e por suas lideranças, a começar com a mais elevada. Ao contrário. Em nome da “governabilidade” foram mantidas no Planalto e nos Estados pessoas e políticas senescentes que serviram a ditaduras, como é o caso de Paulo Maluf e José Sarney – “homem incomum”, segundo Luiz Inácio da Silva.

O símbolo da prudência no Renascimento é uma figura de três rostos, o idoso, o adulto, a criança. As três faces da cronologia devem ser dominadas para garantir eficácia à ação. Tal é a doutrina grega do Kairós, ativado pelos conhecedores do pretérito e do presente, para antecipar o futuro. É o mesmo princípio romano do carpe diem, dádiva efêmera da beleza, do poder, dos bens materiais que, por definição, somem na voragem das horas. É preciso saber capturá-los, não os deixando escapar pelos dedos. Semelhante filosofia alimenta Maquiavel. Sem ela os supostos realistas perdem na luta com a Fortuna. A virtù é aptidão de liderar com rigor lógico e coragem, coisas ignoradas pelos que subiram na vida ludibriando militantes, no esbulho da utopia democrática.

Hobbes e Diderot comentam a fábula do rei Éson. Suas filhas desejavam restituir o vigor ao soberano e deceparam seu corpo. Depois, puseram os fragmentos num caldeirão, a conselho de Medeia. Não houve rejuvenescimento, só morte.

Caros senhores: se desejam mudar o que está aí, é preciso tudo recomeçar. Uma “nova” frente de esquerda sob a liderança de Luiz Inácio da Silva é tingir o cinza com o cinza, sofrer o controle do PMDB e as alianças realistas, as mesmas que levaram o PT ao beco sórdido em que ele se encontra.

*Roberto Romano é professor da Unicamp e autor de ‘Razão de Estado e Outros Estados da Razão’ (Perspectiva)

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