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O quadro piora, segundo o BC

O Estado de S.Paulo

30 Junho 2014 | 02h 04

Continuam piorando as previsões para a economia brasileira, enquanto a presidente-candidata Dilma Rousseff, em campanha permanente, insiste em falar de um país próspero e estável, muito diferente daquele mostrado em publicações oficiais. Inflação maior, crescimento menor e saldo comercial abaixo do estimado até o mês passado são algumas das projeções contidas no relatório trimestral de inflação divulgado pelo Banco Central (BC). A inflação deverá continuar acima da meta, 4,5%, nos próximos dois anos, isto é, até o segundo trimestre de 2016, de acordo com as novas estimativas.

A inflação agora prevista para este ano, 6,4%, é 0,3 ponto maior que a indicada no relatório divulgado há três meses. O novo quadro inclui previsões de 5,7% para 2015 e 5,1% para os 12 meses até o segundo trimestre de 2016. Essas projeções são apresentadas como as mais prováveis no cenário de referência, com câmbio de R$ 2,25 por dólar e taxa básica de juros de 11%.

Depois desses números, o documento apresenta uma declaração meio otimista quanto à evolução dos preços: "Mantidas as condições monetárias", a inflação "tende a entrar em trajetória de convergência para a meta nos trimestres finais do horizonte de projeção". Por enquanto, esse horizonte coincide com o trimestre encerrado em junho de 2016. Neste momento, apostar em taxas declinantes a partir de 5,1% é principalmente uma questão de fé.

Os técnicos e dirigentes do BC continuam mencionando a defasagem entre os nove aumentos de juros a partir de abril do ano passado e seus efeitos completos. O enfraquecimento da economia pode ser parte desses efeitos, mas, por enquanto, nada aponta uma redução efetiva das principais pressões inflacionárias. Ao contrário: o próprio relatório menciona a perspectiva de "inflação resistente nos próximos trimestres". Alguns fatores poderão ser atenuados, mas nada, no relatório, aponta para uma eliminação dos principais desequilíbrios - excesso da demanda em relação à oferta, pressão de custos salariais e desajuste das contas públicas. Em relação às finanças do governo, as afirmações mais otimistas aparecem quase sempre na forma condicional.

Enquanto isso, a economia continua em ritmo muito lento e sem perspectiva de desempenho muito melhor em prazo razoável. O BC baixou de 2% para 1,6% o crescimento previsto para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2014. Para o acumulado em 12 meses até o primeiro trimestre de 2015 a estimativa ficou em 1,8%.

A economia brasileira, segundo o relatório, vem crescendo abaixo de seu potencial. Esse detalhe é apontado como um fator positivo para a contenção da alta de preços, mas até esse comentário parece mais uma tentativa de exibir algum otimismo. Mas esse esforço é anulado pelo próprio documento. As taxas de inflação têm recuado nas últimas semanas, mas as projeções do BC para este e para o próximo ano indicam a expectativa de repique.

Uma recomposição da demanda, com mais investimentos, menor expansão do consumo privado e contas públicas mais arrumadas, será indispensável para a acomodação dos preços. Mas também essa condição, embora lembrada no documento, parece pouco provável no horizonte das projeções.

Pelos novos cálculos do BC, nos quatro trimestres até março de 2015 o consumo das famílias crescerá 1,9%, o do governo aumentará 1,8% e a formação bruta de capital fixo (investimento em máquinas, equipamentos, construções, instalações empresariais e infraestrutura) diminuirá 0,6%. Sem uma forte expansão do investimento produtivo, a capacidade de oferta continuará limitada e o crescimento econômico, reduzido. Nessas condições, qualquer aumento da demanda resultará em inflação.

A baixa capacidade de competir e de exportar combina com esse quadro. O relatório incorpora as novas projeções do BC para as contas externas. Exportação e importação devem cair. A projeção do superávit comercial foi reduzida de US$ 8 bilhões para US$ 5 bilhões. No mercado, o valor projetado já chegou a US$ 2 bilhões.

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