O que aprendemos com Trump

Caberá à imprensa, como principal mediadora social, reavaliar seus instrumentos de aferição dos anseios de uma camada silenciosa da sociedade que não pode mais ser ignorada

O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2016 | 04h03

Quando os chamados “pais fundadores” imaginaram o Colégio Eleitoral americano e o consagraram na Constituição de 1787, pretendiam criar um mecanismo de proteção da recém-conquistada democracia contra os arroubos de eventuais candidatos hábeis o bastante para conquistar corações e mentes dos eleitores mesmo que não encarnassem as virtudes idealmente requeridas dos que pleiteiam ocupar a presidência. A imprevisibilidade do voto popular, hoje amplamente reconhecido como uma conquista democrática, representava, então, um risco para uma nação ainda em construção. A combinação entre os interesses individuais dos cidadãos e os interesses das ex-colônias como entidades coletivas foi a solução encontrada pelos “pais fundadores” para assegurar equilíbrio e segurança ao sistema eleitoral. A partir de 20 de janeiro de 2017, Donald J. Trump terá a oportunidade de atestar a atualidade deste modelo, concebido no fim do século 18, ao tomar posse como o 45.º presidente dos Estados Unidos da América.

Contra as projeções de todos os institutos de pesquisa e o descrédito – tempos depois convertido em oposição – de grande parte da imprensa, da academia e do show business, Trump surpreendeu e derrotou Hillary Clinton até mesmo em Estados historicamente alinhados ao Partido Democrata. Seu triunfo representa uma eloquente declaração de repúdio ao establishment que a imprensa, de uma maneira geral, não conseguiu traduzir na origem por não ter sido capaz de perceber a captura, por um candidato com o perfil de Donald Trump, dos anseios de uma classe média trabalhadora, que desde 2009 se via alijada do processo de retomada do crescimento econômico. A política do presidente Barack Obama para questões como globalização e imigração, e da qual Hillary Clinton era a herdeira, fomentou o surgimento de uma massa silenciosa de descontentes que agora as urnas revelaram de maneira cabal.

Até a sua escolha oficial como candidato do Partido Republicano para disputar a presidência dos EUA, Donald Trump era tratado pela mídia como um personagem caricato, cafona e boquirroto, imagem, aliás, que ele mesmo sempre fez questão de alimentar, seja como o extravagante empresário nova-iorquino, seja como a estrela de programas de TV. Era esperado que durante a campanha eleitoral Trump continuasse a representar o papel que o consagrou. Entretanto, maior do que a surpresa de sua eleição foi o assombro de acadêmicos, analistas políticos e da imprensa, tanto a tradicional como a chamada “nova mídia”, diante de seu triunfo eleitoral inquestionável.

A vitória de um candidato como Donald Trump, tomado como improvável até pouco antes do encerramento oficial da apuração, torna patente o desencontro entre o debate havido em nível acadêmico, jornalístico, entre formadores de opinião em geral, e o debate das ruas, entre os chamados “eleitores médios”, pautado em grande medida por necessidades imediatas como emprego, renda, saúde e segurança. Um discurso centrado nestes temas, prometendo acabar com a “ditadura do politicamente correto” e ainda aliado a um forte apelo pelo resgate de uma identidade nacional americana tida como “perdida” foi decisivo para que os Republicanos não só voltassem a ocupar a Casa Branca, mas também retomassem o controle das duas Casas do Congresso americano.

Diante de um cenário em que fontes de informação estão cada vez mais pulverizadas, onde não há mais espaço para que uma única voz de credibilidade forneça ao eleitorado dados confiáveis para auxiliá-lo no processo de formação de convicção, caberá à imprensa, como principal mediadora social, reavaliar seus instrumentos de aferição dos anseios de uma camada silenciosa da sociedade que não pode mais ser ignorada. É fato que candidatos improváveis continuarão a disputar eleições e, eventualmente, a vencê-las. No futuro, após uma profunda reavaliação da mídia e seus mecanismos, talvez eles não sejam mais tão surpreendentes.

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