O que Pequim mais teme

Liu Xiaobo, o pensador e dissidente chinês que desde 2008 cumpre pena de 11 anos de prisão por "atividades subversivas" e foi contemplado na semana passada com o Prêmio Nobel da Paz, é um moderado. Pode parecer paradoxal, mas, com certeza, isso é o que explica o rigor do tratamento que lhe dispensa o repressivo regime de seu país - ele já sofreu outras condenações, uma das quais a 3 anos de trabalhos forçados por "perturbar a ordem pública".

, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2010 | 01h00

Pode explicar também o temor das autoridades chinesas de que Xiaobo viesse a receber a honraria - traduzido na "advertência" ao comitê norueguês que decide a quem concedê-la - e suas reações virulentas à escolha. Além de considerá-la uma "profanação" do espírito do prêmio e de ameaçar a Noruega com retaliações, como se o governo de Oslo fosse o responsável pela premiação, Pequim colocou em prisão domiciliar a mulher de Xiaobo, a poetisa Liu Xia, depois que ela visitou o marido no cárcere.

O regime chinês prefere enfrentar oposicionistas radicais cujas ações não só têm escasso apoio na população, como ainda podem servir de pretexto para investidas contra a dissensão em geral. Já um opositor como Xiaobo é uma ameaça potencial porque a sua pregação por mudanças políticas pacíficas - mediante o diálogo com o Partido Comunista - encontra eco nas novas gerações de seus concidadãos, beneficiadas pelas monumentais transformações da economia, a ponto de eventualmente contaminar setores da elite dirigente.

Xiaobo entrou para a lista negra da ditadura em 1989 menos por ter sido um dos inspiradores das manifestações da Praça da Paz Celestial do que por ter freado os cabeças quentes do movimento, negociando com as forças de segurança a retirada da multidão. Desse modo ele ganhou uma estatura que um visionário exacerbado jamais alcançaria. Ironicamente, companheiros "puros e duros" de Xiaobo resmungaram que ele é brando demais para merecer o Nobel por uma luta pela democracia e os direitos humanos que não exclui entendimentos com quem os nega.

Mas a sua coerência é irrefutável. Ele foi sentenciado pela terceira vez, há dois anos, como um dos autores da Carta 08, o manifesto posto a circular na internet (e logo removido pelos censores) em defesa da liberdade, igualdade e direitos individuais como "valores universais compartilhados por toda a humanidade". A começar do nome, o texto se inspirou na Carta 77, o abaixo-assinado de dissidentes checos que conquistou adeptos em todo o Leste Europeu, prefigurando a derrocada do "socialismo real", 12 anos depois. Entre uma coisa e outra, Mikhail Gorbachev tentou abrir e modernizar o regime soviético.

Uma eventual repetição desse processo é o que o mandarinato comunista chinês mais teme. Os hierarcas do partido argumentam que uma liberalização política à Gorbachev não só escaparia fatalmente do controle, como ocorreu na URSS, como ainda abriria as portas do inferno - o caos e a desordem estilhaçariam o país que Deng Xiaoping costumava comparar a "uma travessa de areia solta". Ao que tudo indica, quanto mais a economia chinesa se expande, tanto mais a mão pesada de Pequim se abate sobre a heterodoxia. Segundo estimativa confiável, a China mantém 5,8 mil pessoas presas por motivos políticos ou religiosos.

A contar de 2008, quando a repressão se intensificou à medida que se aproximavam os Jogos Olímpicos, mais chineses foram encarcerados por suas ideias do que durante os 5 anos precedentes - e mais prolongadas se tornaram as penas. O embrutecimento do regime desmente as expectativas ocidentais sobre os efeitos políticos da prosperidade na China. A abertura da economia, afirmava-se, cedo ou tarde se refletiria na esfera das liberdades. Não há sinais disso.

"Independentemente do quanto os líderes chineses tenham aberto os seus mercados para o restante do mundo, eles não recuaram nem meio passo nas suas práticas políticas repressoras", avalia o físico exilado Fang Li-Zhi. "Em vez disso, demonstram um desprezo cada vez maior pelos valores dos direitos humanos."

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