O reality show do PSDB

Partido oferece a seus eleitores apenas discurso vazio, que alimenta uma estéril luta intestina

O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2017 | 03h04

Pouco importa a que interesses paroquiais atendem os tucanos que ora se digladiam em público, como se estivessem em um desses medíocres reality shows que deleitam os que adoram ver a desgraça alheia, ou, neste caso, os que esperam lucrar eleitoralmente com a autofagia do PSDB, como o chefão petista Lula da Silva e o iracundo Jair Bolsonaro. O fato é que o PSDB é, já há algum tempo, um partido sem rumo. Outrora ele se propôs a ser o representante da modernidade política, mas, há tempo, nada tem a oferecer a seus eleitores senão um discurso vazio, que alimenta estéril luta intestina.

O mais recente capítulo desse lamentável espetáculo foi a destituição do senador Tasso Jereissati (CE) da presidência interina do PSDB, por ordem do presidente licenciado, senador Aécio Neves (MG). Segundo Aécio, era necessário afastar Tasso para equilibrar a disputa pela presidência do partido, na qual o senador cearense é candidato e poderia ser favorecido por controlar a máquina partidária. Mas há quem diga que o dedazo de Aécio foi uma manobra da ala governista do tucanato, teleguiada pelo presidente Michel Temer, contra a turma liderada por Tasso, que defende o desembarque imediato do governo.

Ora, já se sabe que os tucanos hoje ministros mais cedo ou mais tarde deixarão o governo, seja para concorrer às eleições do ano que vem, seja para dar lugar a integrantes de outros partidos na provável reorganização da base. Logo, não é possível concluir que a truculência de Aécio tenha favorecido uma ala que está com os dias contados.

Tasso Jereissati, por sua vez, enxergou no movimento dos chamados “cabeças pretas” do PSDB – o pessoal “jovem” que considera inaceitável ligar-se ao governo de Temer em razão das acusações de corrupção e de sua impopularidade – uma oportunidade de retomar algum protagonismo no partido que ele já presidiu. Com esse objetivo, ao que consta de forma autoritária, tentou tornar oficial, inclusive em uma propaganda do partido, um discurso segundo o qual o PSDB errou ao aceitar o “presidencialismo de cooptação”, e se comprometia a se “conectar com as pessoas” – uma forma de dizer que, entre a necessidade de reformas impopulares e o alarido das pesquisas de opinião, o partido ficaria com o segundo.

É claro que, diante de tal embate, se torna muito difícil entender qual partido é hoje o PSDB. Não que tenha sido fácil algum dia – não é à toa que, além do tucano, o símbolo do partido é o muro, em cima do qual costumam ficar seus hesitantes protagonistas. Contribui muito para essa confusão a ausência de uma liderança clara, fruto de uma gritante falta de norte, situação em que viceja o oportunismo dos que pretendem inclinar o PSDB para o populismo.

Com isso, o partido corre o sério risco de perder os eleitores que sempre votaram em seus candidatos na esperança de vê-los defender as reformas e a seriedade administrativa, e de não ganhar os eleitores que se deixam seduzir por promessas utópicas e discursos demagógicos, pois esse eleitorado já tem seu candidato cativo, Lula da Silva.

Abandonar a defesa das medidas impopulares que o governo Temer está tentando aprovar, na presunção de que isso garantiria votos e salvaria a imagem do PSDB perante a opinião pública, talvez seja o mais grave erro de avaliação de parte dos tucanos em toda a história do partido.

“Engana-se quem pensa que será carregado nos braços do povo por ter desembarcado do governo”, disse, com razão, o chanceler Aloysio Nunes Ferreira, um dos tucanos “cabeças brancas”. Para ele, há correligionários “tingindo o cabelo de preto” só para votar contra a reforma da Previdência. “O PSDB será julgado por suas ações concretas em benefício do País. Mas como fazer o discurso da razão com o partido em pé de guerra?”, questionou Aloysio, para quem, “desse jeito, vamos entregar a Presidência para o Lula em 2018”. A advertência pode soar exagerada, mas não convém pagar para ver.

 

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