O recado sombrio da indústria

A economia brasileira crescerá menos e a inflação será maior do que indicavam as projeções de abril, segundo as novas estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgadas na quinta-feira. Pioraram quase todos os componentes do cenário econômico, atualizado a cada três meses pelos economistas da entidade. Mas a recomendação básica é a mesma publicada no terceiro trimestre do ano passado: a economia só sairá da estagnação se a presidente Dilma Rousseff mudar a política seguida até agora e baseada, principalmente, no estímulo ao consumo. Esse modelo, argumentam, está esgotado, como já perceberam muitos analistas. E é preciso mudar com urgência, porque as contas externas se deterioram com rapidez, o ritmo de criação de empregos tende a diminuir e a erosão das finanças públicas se acentua. Sem o barulho e sem as palavras de ordem das manifestações de rua, o novo Informe Conjuntural da CNI é mais um alerta importante sobre os perigos à frente. Nenhum dos problemas apontados - todos evidentes - será resolvido com meras manobras políticas.

O Estado de S.Paulo

06 Julho 2013 | 02h09

Os economistas da CNI reduziram de 3,2% para 2% o crescimento previsto para o PIB e elevaram de 5,7% para 6% a inflação estimada para 2013, maior que a observada no ano passado, de 5,8%. A produção industrial deverá aumentar apenas 1%, em vez dos 2,6% calculados há três meses. O segmento com melhor desempenho será o da indústria de transformação, com crescimento de apenas 1,5%, bem abaixo do necessário para compensar a queda de 2,5% em 2012.

Apesar do tom bem mais otimista, o Informe de abril já apontava a maior parte dos problemas observada nos meses seguintes. Passados três meses, o novo cenário só apresenta melhora em um componente. A estimativa de expansão do investimento físico passou de 4% para 5,1%. Mesmo com esse avanço, no entanto, o Brasil ainda investirá apenas 18,7% do PIB, se o crescimento econômico ficar nos 2% previstos.

Outros países emergentes latino-americanos têm exibido taxas bem maiores, na faixa de 21% a 25%. Sem aplicar muito mais na expansão de sua base produtiva - máquinas, equipamentos, estradas, armazéns, portos, centrais elétricas, etc. -, o País continuará condenado a um ritmo de crescimento econômico abaixo de medíocre. E ainda seria preciso cuidar com mais atenção e muito mais inteligência da educação em todos os níveis, a começar pela instrução básica.

Documentos da CNI têm chamado a atenção, há anos, para a escassez de mão de obra qualificada, ou mesmo passível de qualificação, e para a baixa eficiência do pessoal empregado. Esse problema é destacado mais uma vez no Informe Conjuntural do segundo trimestre. Estudos sobre competitividade também têm apontado a formação insuficiente de capital humano como uma das fraquezas da economia brasileira.

Autoridades insistem, no entanto, em comparar dados de hoje com os de alguns anos atrás para mostrar como evoluíram os indicadores da educação. Em vez disso, deveriam comparar os dados brasileiros com os de outros países, tanto avançados quanto emergentes, porque com esses o Brasil tem de competir. Não se compete, no mercado internacional, com o próprio passado, mas com o presente de outros países.

Sem condições para enfrentar a concorrência, o Brasil continuará enfrentando graves dificuldades no comércio internacional. Teria problemas sérios mesmo sem a crise externa. Os economistas da CNI baixaram de US$ 11,3 bilhões para US$ 9,2 bilhões o saldo comercial previsto. Diminuíram as projeções do valor exportado e do importado, mas a queda do primeiro foi maior.

Como consequência principalmente da erosão do saldo comercial, o déficit em transações correntes deverá subir. A projeção foi revista de US$ 68,1 bilhões para US$ 74,3 bilhões. Esses números são pouco mais otimistas que os estimados pelo Banco Central: US$ 7 bilhões de superávit para o comércio e US$ 75 bilhões de buraco na conta corrente. Em qualquer caso, o País ficará mais vulnerável a choques externos.

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