O regime de Kadafi agoniza

Ao fim e ao cabo, foi a "Força Aérea Rebelde" o fator singular mais importante que levou ao leito de morte a ditadura de 42 anos de Muamar Kadafi na Líbia, depois de seis meses de vaivém e incertezas no confronto entre governo e insurgência - o mais sangrento do gênero na crônica da Primavera Árabe. O termo entre aspas, naturalmente, designa a aviação mobilizada pelos países-membros da Otan, a aliança ocidental, quando, por sua iniciativa, o Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas estabeleceu uma zona de exclusão no espaço aéreo do país norte-africano, em meados de março passado. A decisão - que se seguiu à imposição de sanções ao regime de Trípoli pela brutal repressão aos protestos inspirados nas revoltas da Tunísia e do Egito, a oeste e a leste do país - foi motivada pela ameaça de Kadafi de promover um banho de sangue em Benghazi, quando retomasse o que havia se transformado no reduto da rebelião.

, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2011 | 00h00

A resolução do CS autorizou o uso de "todas as medidas necessárias", exceto uma invasão, para proteger os civis da fúria homicida do tirano desafiado. Na realidade, o texto legitimou a atuação coordenada entre a aviação estrangeira e a heterogênea coalizão de forças insurgentes, incluindo tribos hostis àquelas leais a Kadafi, radicais islâmicos, jovens laicos sintonizados com o mundo e remanescentes da antiga oposição até então reduzida ao silêncio, agrupados sob a tenda do recém-criado Conselho Nacional de Transição. Em cerca de 7.500 operações, os aviões de combate, sobretudo franceses e britânicos, apoiados por 15 belonaves enviadas ao Mediterrâneo, não só dificultaram a contraofensiva do regime, cortando as suas linhas, como dizimaram sistematicamente os arsenais de Kadafi, que ele havia adquirido no Ocidente depois de se livrar da pecha de "cachorro louco", quando, em 2003, renegou o terrorismo e renunciou ao seu programa atômico, em seguida à derrubada de Saddam Hussein no Iraque.

Enfim, a tomada de grandes áreas de Trípoli, no domingo, foi precedida de mais um bombardeio da fortaleza de Bab al-Azizia, o bunker de Kadafi - desta vez praticamente definindo o destino do déspota. Durante os combates em Trípoli, três dos filhos de Kadafi foram capturados pelos insurgentes. Já na semana anterior, intensificou-se o êxodo dos últimos dos seus fiéis, imitando os seus camaradas mais previdentes que se passaram para o outro lado quando as bombas da Otan começaram a cair. Nada foi tão eloquente nessa reta final como a fuga para o Egito do chefe dos tenebrosos serviços de segurança do ditador, Nasser al-Mabrouk Abdullah, com a família inteira. Mas, se a aviação ocidental impediu que o psicocrata líbio massacrasse o seu povo como vem fazendo com os sírios o frio Bashar Assad - e, afinal, definisse o curso do conflito -, ela obviamente nada poderá fazer se (ou quando) as facções oposicionistas começarem a se engalfinhar pelos despojos do poder.

A não ser na gestão profissional do setor de petróleo, que mantém em pé esse desértico país de 6,5 milhões de habitantes e 1,760 milhão de quilômetros quadrados, Kadafi levou ao extremo o clássico dito "O Estado sou eu": as instituições são caricatas; a burocracia, corrupta e opressiva; as leis, flutuantes; e a Constituição, inexistente. Não há um aparato administrativo digno do nome a continuar funcionando sob nova direção. Do lado rebelde, o que transborda de entusiasmo escasseia em matéria de coerência e de lideranças reconhecidas. Há poucas semanas, depois do assassínio, atribuído a fundamentalistas, do comandante militar da insurgência, general Abdel Fatah Younis, o corpo dirigente do movimento foi dissolvido. Porta-vozes da oposição já falam em eleições livres, sob a supervisão da ONU, daqui a oito meses. Garantem que a capital líbia não será uma segunda Bagdá depois da queda de Saddam, com uma orgia de saques e matanças. Mas não se sabe se a nova ordem estará disposta a cooptar a legião de colaboradores de Kadafi para reconstruir o governo e prevenir uma guerra civil. No Iraque, o banimento da velha elite militar e dos filiados ao partido oficial Baath custou anos de violência.

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