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O retrato da educação na AL

O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2014 | 02h 05

Realizado com base na observação diária do comportamento em sala de aula de mais de 15 mil professores em 3 mil escolas públicas da América Latina (AL) e do Caribe, relatório do Banco Mundial sobre o ensino básico na região mostra uma ominosa contradição. Revela que, apesar dos investimentos feitos na última década, e que levaram à universalização da oferta de vagas no ensino fundamental e ao aumento dos índices de escolaridade do ensino médio, os países da região - com exceção do Chile - não têm conseguido melhorar a capacidade de aprendizagem dos estudantes em matérias fundamentais, como matemática e leitura, disciplinas consideradas vitais pelo Banco Mundial para que as novas gerações possam desenvolver pensamento crítico e ampliar as habilidades cognitivas.

A consequência é que a ineficiência do sistema educacional se tornou o principal gargalo do desenvolvimento econômico e social dos países latino-americanos e caribenhos, levando-os a se distanciar cada vez mais dos países do Leste Asiático. O estudo foi feito com o objetivo de estimular os governos da região a reformularem suas políticas educacionais, adotando novos critérios para a seleção de docentes para o magistério público.

Como o ensino básico na América Latina e no Caribe está num nível de qualidade abaixo dos padrões necessários a uma economia competitiva e capaz de ocupar espaços maiores no mercado mundial, os países dessa região carecem de capital humano para poder diversificar a produção, aumentar as exportações de maior valor agregado e assegurar crescimento sustentável.

Segundo o relatório, a maioria dos professores de educação básica na região tem baixo domínio técnico das disciplinas que ensinam, adota práticas pedagógicas ineficazes, faz uso limitado das novas tecnologias da informação, não consegue manter os alunos interessados nas aulas e dedica apenas 65% de sua carga horária para atividades didáticas. O tempo restante é gasto com atividades administrativas. O resultado é a perda de um dia inteiro de instrução por semana, comprometendo a alfabetização e o aprendizado de matemática. "Alunos com professor fraco dominam 50% ou menos do currículo para a série em que estão. Alunos com um bom professor têm um ganho médio de um ano. E estudantes com professores excelentes avançam uma série ou mais", afirma o relatório, depois de enfatizar que "tempo de instrução é o recurso mais caro de uma escola".

O estudo aponta ainda que a América Latina e o Caribe têm 7 milhões de professores de ensino básico. A maioria está envelhecendo e, por causa dos baixos salários, as autoridades educacionais não conseguem contratar jovens preparados para substituir os que se aposentam, especialmente nas disciplinas de matemática, ciências e línguas estrangeiras. "A América Latina não está atraindo pessoas de alto calibre de que precisa para construir sistemas educacionais de classe mundial. Os países da região parecem estar presos numa armadilha, com baixos padrões para o ingresso no magistério, candidatos de baixa qualidade, salários baixos e com pouco profissionalismo em sala de aula e resultados educacionais deficientes", afirma o relatório. O cenário é diametralmente oposto ao dos países bem-sucedidos nos rankings internacionais de avaliação escolar, como Finlândia, Cingapura e Coreia do Sul. Garantindo bons salários e boas condições de trabalho, esses países têm conseguido recrutar jovens talentosos para o magistério público.

Por causa das especificidades dos países latino-americanos e caribenhos, as estratégias recomendadas pelo Banco Mundial para que melhorem a qualidade do ensino básico são diversificadas. O denominador comum está no aumento de rigor nos critérios de recrutamento dos professores. "A seleção é a pedra angular das reformas educacionais", conclui o relatório, depois de fazer uma observação importante: quanto maiores forem os incentivos para motivar os docentes a ampliar seu desempenho pedagógico, mais atraente será a profissão e melhores serão os candidatos ao magistério público.

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