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O rumo da maior economia

O Estado de S.Paulo

17 Junho 2014 | 02h 07

Boa notícia para todo o mundo, a recuperação americana deve ganhar impulso neste ano e em 2015, segundo avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgada ontem. O crescimento de 1,9%, no ano passado, deve chegar a 2% em 2014 e a 3% no próximo ano, de acordo com as novas projeções. O desempenho mais fraco nos primeiros três meses, quando o PIB diminuiu em ritmo equivalente a 1% ao ano, resultou em grande parte de nevascas inesperadas e de um inverno mais severo do que o previsto, mas os números já devem ser melhores a partir deste trimestre, comentou a diretora-gerente da instituição, Christine Lagarde. De toda forma, foi reduzida a expansão prevista para este ano - 2,8% na estimativa anterior. As projeções são parte de um relatório anual preparado com base nas informações de uma missão técnica. São feitos com regularidade trabalhos semelhantes sobre a maior parte dos 188 países vinculados ao FMI.

Há uma semana, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) havia publicado seu relatório periódico sobre as perspectivas dos Estados Unidos. As estimativas de crescimento são um pouco mais otimistas - 2,5% em 2014 e 3,5% em 2015 -, mas a análise e as recomendações coincidem em pontos importantes com as do FMI.

Para as duas instituições, a expansão americana deverá resultar em maiores importações neste ano e no próximo. É uma excelente notícia, principalmente para os parceiros comerciais mais preparados para aproveitar as novas oportunidades no mais dinâmico mercado consumidor do mundo.

Mesmo o Brasil, embora menos preparado que outras economias, poderá beneficiar-se. Entre janeiro e maio deste ano o valor exportado para os EUA, de US$ 10,51 bilhões, foi 13,2% maior que o de um ano antes, enquanto a receita geral das exportações, de US$ 90,06 bilhões, foi 2,5% menor que a dos mesmos meses de 2013, pela média dos dias úteis.

O Brasil está em desvantagem diante dos competidores por problemas de eficiência e porque vários outros países têm acesso facilitado ao mercado americano por acordos de livre-comércio. Os governos brasileiro e argentino, os mais influentes no Mercosul, preferiram, a partir de 2003, negociar acordos com mercados menores e menos desenvolvidos. Empresas brasileiras têm procurado contornar a dificuldade investindo em países latino-americanos com melhor acesso aos Estados Unidos.

A curto prazo, a economia americana poderá crescer além de seu potencial, de acordo com o FMI e a OCDE, mas nos anos seguintes o dinamismo dependerá de reformas e de acertos na política econômica. De acordo com o Fundo, o potencial de crescimento dos Estados Unidos está em torno de 2% ao ano. Para a OCDE, em 2,1% neste ano e 2,3% em 2015. Estimar esse potencial é complicado e as avaliações são inseguras, mas o conceito é razoavelmente claro. É possível crescer além desse limite durante algum tempo. Insistir na trajetória levará a desajustes importantes, como inflação elevada e problemas nas contas externas. Mesmo com o baixo ritmo de crescimento dos últimos três anos e meio, o Brasil já enfrenta uma inflação maior que a de países emergentes mais dinâmicos e uma clara deterioração no balanço de pagamentos.

A solução é combinar reformas e investimentos para elevar a capacidade de crescer sem desajustes. O FMI recomenda aos Estados Unidos linhas de ação para aumentar a produtividade, estimular a inovação e ampliar o investimento em capital físico e capital humano. As sugestões incluem reformas para aumentar a oferta e a qualidade da mão de obra (com novas normas de imigração e melhoras educacionais). Isso também poderá contribuir para a redução da pobreza, ao lado de facilidades tributárias para famílias de baixa renda. Também será preciso mexer na política fiscal, traçando um caminho confiável de consolidação no longo prazo e criando condições políticas, no curto prazo, para ações de estímulo ao crescimento. A maior parte dessa pauta é conhecida. A maior dificuldade é combinar as mudanças com a oposição.

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