O segundo turno

Vencemos o primeiro turno da luta em favor da educação. Superando dificuldades de proporções continentais, o Brasil já considera fundamental a escolarização e a formação de suas crianças e seus jovens. O que era apenas uma preocupação de especialistas, anos atrás, é hoje uma percepção comum, uma ideia que vai alcançando um consenso: a ideia de que a educação está na base da solução para os principais problemas e desafios do presente e do futuro.

Jorge Werthein, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2010 | 00h00

Foi um longo e disputado primeiro turno, uma campanha com palanques memoráveis, como o que reuniu, em 1932, intelectuais signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação. Em grande medida, devemos as conquistas atuais, com o tema da educação em destaque nos debates, a Anísio Teixeira, Cecília Meireles, Julio de Mesquita Filho, Roquete Pinto e outros daqueles 26 cidadãos que empunharam a bandeira e asseveraram, 78 anos atrás: nenhuma questão nacional "sobreleva em importância e gravidade" a educação.

Essa visão estratégica veio amadurecendo com vigor e novos atores foram lhe agregando um senso de urgência. Afinal, a criança agora em idade escolar não pode ficar à mercê de promessas. Iniciativas como as da Unesco, com seu histórico Manifesto dos Senadores, que pela primeira vez uniu todos os senadores brasileiros num compromisso suprapartidário pela educação, em 2004, semearam no Brasil a noção de que o ensino requer imediatamente uma política de Estado de longo prazo, com diretrizes sólidas, que não se dissolvam a cada troca de governo. Hoje, o movimento Todos pela Educação reflete esse espírito, unindo representantes de todos os segmentos da sociedade.

A mídia também compreendeu a importância da educação. Mais do que pautar-se pelas pesquisas de intenções, os veículos de comunicação demonstraram forte compromisso social e responsabilidade para com o futuro, ampliando espaço para o debate dos problemas e soluções. A cobertura de temas relativos à educação cresceu e ganhou as capas, as home pages e as chamadas de rádio e telejornais.

A vitória no primeiro turno representa muito. Lutou-se, sobretudo, pela educação inclusiva, e em 2009 chegamos à marca de 97,6% das crianças e dos adolescentes em idade escolar matriculados, ante 78,6% em 1979 (Pnad). Hoje o investimento no ensino tem dotação orçamentária própria, com aplicação obrigatória, e criou-se um fundo nacional para o financiamento da escola fundamental. Foi uma vitória sofrida, ora avançando, ora cedendo ao atraso e à inércia, e somente na apuração dos últimos votos foi que a educação se viu em condições de encarar o segundo turno.

Diz-se que o segundo turno é uma outra eleição, e assim o é nesta campanha. As conquistas obtidas têm valor inestimável, mas não são suficientes para que a educação seja eleita, de fato, prioridade para presidentes, governadores e prefeitos. Uma luta árdua ainda tem de ser travada até que nossos milhões de alunos comecem efetivamente a desenvolver as competências necessárias para atuar no circuito das mudanças vertiginosas do século 21, participando e ajudando a definir o rumo dessas transformações como cidadãos plenos e atores da sociedade do conhecimento.

Os desafios do segundo turno são ainda mais complexos. Se os recursos para a educação aumentaram nas últimas décadas, ainda representam um quinto do que os países desenvolvidos destinam ao setor, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), como lembra editorial do Estado de 25/10. Enquanto Itália e Islândia investem, em média, US$ 94.589 por aluno durante o ensino fundamental, no Brasil o gasto médio é de US$ 19.516. E grande parte desses recursos se perde por ineficiência. Nossas taxas de reprovação (12,1%) e de abandono (4,8%) são as maiores do Mercosul e estão entre as mais altas do planeta. Só a metade (50,9%) dos nossos jovens de 15 a 17 anos está cursando o ensino médio. Estamos entre os piores países dos 57 avaliados pelo Pisa, o programa que mede os conhecimentos dos alunos.

A plataforma de campanha agora deve ter como palavra-chave a qualidade, e esse slogan já soa forte. Mas devemos ir além dos termos genéricos, porque no segundo turno é importante especificar propostas. Devemos assumir compromissos pela valorização efetiva do professor, com salário digno, formação adequada e suporte para uma atuação produtiva junto aos educandos. Temos de implementar a educação em tempo integral, com mais recursos pedagógicos, e garantir às crianças e aos jovens da era digital recursos de aprendizado compatíveis com sua realidade de múltiplas tecnologias.

É fundamental ter claro o que significa educação de qualidade, quais elementos o eleitor deve exigir para a escola de seus filhos. Já não basta garantir escola, é preciso que ela cumpra o seu papel, sob políticas que diminuam as violências que hoje oprimem a comunidade escolar. É indispensável garantir um ensino de ciências digno do século 21, tornando a sala de aula um ambiente de investigação crítica e construção de conhecimento. Queremos educação de qualidade para que esses estudantes possam ser os cérebros que, usando a ciência mais avançada, vão lidar com as riquezas que o Brasil nos oferece, de modo responsável e sustentável.

A plataforma é ampla, e tem de ser ainda mais detalhada neste segundo turno. Essa coligação de forças tem condições de formar o consenso de toda a sociedade em favor da educação, e tem plenas condições de passar no teste mais importante, que é a institucionalização das políticas de qualificação. Quando medidas concretas forem implementadas, aí, sim, teremos a certeza da vitória. Uma vitória que significará, como sempre, apenas o início de uma nova etapa da longa jornada pela construção de uma sociedade mais justa.

DOUTOR EM EDUCAÇÃO PELA STANFORD UNIVERSITY, VICE-PRESIDENTE DA SANGARI NO BRASIL, FOI REPRESENTANTE DA UNESCO NO PAÍS. E-MAIL: JORGE.WERTHEIN@SANGARI.COM

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