O último atrevimento

Eduardo Cunha é, definitivamente, um fenômeno patológico

O Estado de S.Paulo

14 Julho 2016 | 03h00

Se já não houvesse razões mais do que suficientes para que tenha seu mandato de deputado cassado por falta de decoro parlamentar, Eduardo Cunha as forneceu ele próprio com o atrevimento de comparecer à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para, dirigindo-se aos, segundo ele, 117 parlamentares investigados por corrupção, declarar, com o mais absoluto despudor, o que pode ser resumido em português claro: “A perseguição não para, não se pode mais roubar em paz. Hoje foi comigo, amanhã será com vocês. Só há uma saída: corruptos, unamo-nos!”.

Eduardo Cunha é, definitivamente, um fenômeno patológico. Em mais de um quarto de século de vida pública tem colecionado toda sorte de suspeitas sobre enriquecimento ilícito. É hoje um homem muito rico que faz questão de ostentar um padrão de vida altamente sofisticado, que justifica invocando rendimentos obtidos com a exportação de carnes enlatadas para a África e com sua habilidade no mercado financeiro. Já sua mulher, a ex-jornalista Claudia Cruz, também ré da Lava Jato, alega que a fortuna do casal advém, principalmente, de bem-sucedidos investimentos imobiliários na Barra da Tijuca.

Réu em dois processos da Lava Jato até agora e acusado em várias delações premiadas de ter exigido e recebido milhões de dólares em propina, Cunha foi alvo de uma decisão inédita do Supremo Tribunal Federal (STF), que por unanimidade o afastou do exercício do mandato de deputado federal e do cargo de presidente da Câmara dos Deputados, ao qual renunciou dias atrás numa evidente manobra para tentar salvar a condição de parlamentar que lhe garante foro privilegiado na Justiça.

Com extrema ousadia e inegável habilidade política, nos últimos anos Eduardo Cosentino Cunha logrou reunir em seu entorno um grande número de aliados, deputados de dentro e de fora das fileiras de seu partido, o PMDB. Construiu esse grupo recorrendo exatamente aos mesmos expedientes que garantiram aos governos petistas montar uma sólida base de apoio parlamentar: o toma lá dá cá. A troca de favores foi sustentada pela teia de relações cultivada por Cunha nos altos escalões do governo e, principalmente, nos círculos empresariais, por meio dos quais conseguiu oferecer apoio financeiro a dezenas de campanhas eleitorais de parlamentares e prefeitos.

A primeira grande manifestação da eficiência dos métodos políticos de Eduardo Cunha contou com a inestimável colaboração de Dilma Rousseff. Recém-empossada em seu segundo mandato e com a soberba à flor da pele, a pupila que hoje Lula renega entendeu que era hora de acabar com a incômoda influência de seu principal aliado, o PMDB, no Congresso Nacional. Decidiu ignorar acordos e instalar um petista na presidência da Câmara dos Deputados, em fevereiro do ano passado. Foi fragorosamente derrotada por Cunha, no primeiro turno da votação, pois naquele instante o parlamentar fluminense já tinha sob controle o chamado baixo clero, hoje conhecido como Centrão. Foi o começo do fim de Dilma.

O circo de horrores na política a que o País assistiu no último ano e meio, tornado mais complexo e grave pela sucessão de escândalos envolvendo agentes públicos e empresários, pode estar chegando agora ao limiar de uma nova fase com a remoção da cena dos dois inimigos figadais, Dilma e Cunha, que tanto mal têm feito ao Brasil.

O ex-presidente da Câmara, que acabou se transformando no maior símbolo de tudo o que os brasileiros repudiam na política e por essa razão tem um índice recorde de rejeição pela opinião pública, encara sua agonia final com o mesmo despudor que sempre foi a marca registrada de seu comportamento político. Mas seu fim é inevitável, pois o que lhe resta de poder se esvai na medida em que os antigos aliados se dão conta de que ele não tem mais nada a oferecer. Terá o mandato cassado, provavelmente em agosto, e aí vai ter que se entender com a Justiça de primeira instância – o juiz Sergio Moro, inclusive – e em seguida fazer companhia ao crescente bando de corruptos que começam a lotar as cadeias. Falta o destino ser suficientemente irônico para jungir Cunha e Dilma, simultaneamente, no caminho do esquecimento. Seria uma ótima notícia, para variar.

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