O valor da informação

Se o Facebook quer valorizar a informação e a democracia, deve começar a valorizar os veículos que, sabidamente, fazem disso sua razão de existir

O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2018 | 03h10

Em novembro, o Facebook anunciou ter ultrapassado a marca de 2 bilhões de usuários ativos por mês em todo o mundo. No Brasil, são cerca de 120 milhões de pessoas com acesso à rede social. Tal é a sua penetração na sociedade que aqueles que ousam declarar que “não estão no Facebook” são vistos praticamente como alienígenas ou, na melhor das hipóteses, com um certo olhar de estranhamento.

O gigantismo dos números e a presença massiva do Facebook na vida moderna dá a medida do processo de transformação por que passou a empresa, concebida como uma rede social voltada para um grupo restrito de universitários americanos e que agora é uma gigante plataforma global de interação entre pessoas e empresas. Esta onipresença traz resultado: o faturamento do Facebook com publicidade chegou a US$ 10,5 bilhões em 2017.

O número de usuários é precisamente o grande ativo do Facebook. Além de servir como uma singela “comunidade para aproximar pessoas”, como apregoa seu criador, Mark Zuckerberg, uma rede social que atrai para si quase um terço da população mundial tem uma audiência respeitável para oferecer àqueles dispostos a divulgar o que quer que seja: produtos, serviços, notícias.

Junto com os bilhões de dólares, a vitrine planetária também trouxe alguns dissabores. O Facebook está absorvido por uma onda de críticas à frouxidão de seus mecanismos de controle para impedir a disseminação de notícias falsas. O ápice da crise de confiança foi no ano passado, quando a empresa figurou no centro do debate político nos Estados Unidos por seu suposto papel na difusão das chamadas fake news que teriam influenciado a vitória de Donald Trump. O caso é investigado pelo FBI e por uma comissão especial do Congresso americano, que apuram o envolvimento do governo da Rússia na produção das tais notícias falsas.

Em comunicado divulgado recentemente, o Facebook reconheceu que “as redes sociais podem apresentar um risco à democracia ao permitir a divulgação de mentiras”. De fato, o combate à praga das fake news está no centro do debate a respeito da lisura das eleições em vários países democráticos. Assim foi na França, na Alemanha e nos Estados Unidos. No Brasil também já se fala na criação de uma força-tarefa com membros do TSE, da Polícia Federal e até mesmo das áreas de inteligência das Forças Armadas para evitar os danos à legitimidade das eleições de 2018.

Mas o fato é que a massificação do acesso às redes sociais torna virtualmente impossível impedir o tráfego de informações falsas que são divulgadas por meio delas. Não obstante a preocupação manifestada por grandes empresas como Facebook, Twitter e Google, e mesmo por governos, as medidas anunciadas transmitem tão somente uma falsa segurança acerca da sanidade do ambiente digital. Hoje, qualquer pessoa pode escrever qualquer coisa nas redes sociais e ter sua mensagem amplificada livremente por uma audiência que foge ao seu controle. Não por acaso, tornou-se comum ler a mensagem “não sei se é verdade, mas resolvi compartilhar” antes de vários textos supostamente “jornalísticos” que são compartilhados por meio das redes sociais e aplicativos de comunicação instantânea, como o WhatsApp.

Há poucos dias, o Facebook anunciou uma série de alterações nos algoritmos por trás de seu mural de notícias – a timeline – de modo a privilegiar o tráfego de postagens pessoais sobre aquelas produzidas por veículos de comunicação. Foi uma decisão no mínimo contraditória para uma empresa que se diz preocupada com a qualidade da informação e, em última análise, com a defesa da democracia. Ao restringir o tráfego de postagens de veículos de informação reconhecidos, o Facebook nada mais faz do que ampliar o espaço para a circulação de fake news.

Informação confiável requer investimentos em pessoas e meios. Confiança demanda tempo para ser conquistada. Se o Facebook quer valorizar a informação e a democracia, deve começar a valorizar os veículos que, sabidamente, fazem disso sua razão de existir.

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