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O veneno da intolerância

PAULO SOTERO*

- Atualizado:08 Janeiro 2016 | 02h 55

Duas cenas da tensa passagem de ano expuseram o clima de intolerância política que a crise atual alimenta no Brasil entre pessoas e grupos com opiniões aparentemente irreconciliáveis sobre as causas de nosso infortúnio e as possíveis soluções. O cisma envenena o ambiente e põe em questão a percepção benevolente que nós e outros temos sobre a saudável propensão dos brasileiros a negociar suas diferenças. Os dois episódios aqui citados passaram-se em espaços públicos e envolveram figuras admiradas pela maioria pelo que fizeram no desempenho de seus respectivos ofícios.

Chico Buarque de Holanda, filho da elite que subiu o morro para beber na fonte da música popular e construiu obra exemplar, cantando em verso e prosa nossas esperanças, amores e aflições, foi insultado por antipetistas numa calçada do Rio de Janeiro por ser adepto da impopular presidente Dilma Rousseff e crítico do impeachment que ela enfrenta no Congresso.

Exemplo de superação numa das sociedades mais desiguais do planeta, o juiz federal aposentado Joaquim Barbosa, primeiro negro alçado ao Supremo Tribunal Federal, foi hostilizado por petistas ao sair de um bar em Brasília. O motivo da ira dirigida ao ex-presidente do STF ficou claro nos vivas que autores dos insultos deram ao ex-presidente do Partido dos Trabalhadores José Dirceu de Oliveira, condenado à prisão em 2012 por crimes de corrupção, com outros próceres do PT, em julgamento conduzido por Barbosa e que abriu caminho para a Operação Lava Jato.

Em 1981, o historiador Boris Fausto vislumbrou a divisão expressa pelos constrangimentos vividos pelos dois ícone brasileiros em conversa sobre os desafios que viriam com democracia, já então em nosso horizonte. “O grande teste acontecerá quando começarmos a mandar os bacanas para a cadeia”, previu Boris, que passava um período como pesquisador no Wilson Center. “Mas isso vai demorar, pois cadeia no Brasil serve só para uma parte da população, e seria uma violação dos direitos humanos mandar nossa gente fina para as penitenciárias que temos”, acrescentou ele, sarcasticamente.

Numa ironia da História, quis o destino que coubesse a um juiz descendente de escravos mandar para a prisão gente importante do partido preferido do compositor, em acontecimento que revelou à Nação estarrecida crime organizado em altíssima e vasta escala, cuja existência – desde sempre presumida – foi confirmada por ações conduzidas por agentes da lei sob supervisão do STF. O mesmo, aliás, vale para o processo de impeachment, regulado pelo Supremo.

Há muito a celebrar nos fatos acima. Chico Buarque, autor censurado e perseguido por uma ditadura que combateu, exerce o direito cívico que ajudou a conquistar ao manifestar suas opiniões e lealdades políticas. O fato de elas desgostarem milhões não as invalida nem diminui a contribuição do compositor à Nação. Da mesma forma, o desempenho de Barbosa no caso do mensalão desagradou a uma parcela da elite nacional, nela incluídos os líderes e os intelectuais do PT. A realidade, porém, é que o ex-presidente do Supremo agiu guiado por princípios de justiça inscritos na Constituição e foi acompanhado em seu voto condenatório por sete ministros, vários nomeados para a Corte, como ele próprio, por presidentes petistas – fato que constitui prova de maturidade democrática. As posições políticas que Barbosa assumiu desde que deixou o serviço público são, a exemplo das opiniões de Chico Buarque, as de um cidadão que tem todo o direito de manifestá-las do púlpito privilegiado que conquistou por seus méritos.

Da mesma forma, por tristes e prejudiciais que sejam para a economia, as revelações dos crimes do petrolão mostram o vigor com que uma nova geração de juízes, promotores e agentes da lei formada na democracia se empenha hoje para fazer valer o primado da lei, respondendo à demanda da sociedade por justiça e decência na política – um valor que, vale lembrar, inspirou a mobilização cívica da qual surgiu o PT como partido da ética e foi fator vital na transição democrática em 1985.

A discórdia trazida pela crise está evidente em todos os espaços do debate público. Como muitos que leem estas linhas, tenho amigos em campos opostos da briga. Todos têm formação universitária. A maioria mora em bairros privilegiados. Alguns são vizinhos. Seus comentários no Facebook vão, no entanto, muito além da expressão de diferenças próprias do debate democrático e transmitem mal disfarçado desprezo, para não dizer ódio, por aqueles dos quais divergem.

Aí mora o perigo. Ele não existe só no Brasil. Turbinado pela mídias sociais, está presente nos ataques que desqualificam adversários e ameaçam padrões de convívio também em sociedades onde a democracia tem raízes antigas e profundas.

O sociólogo Simon Schwartzman colocou o dedo na ferida em mensagem de ano-novo aos amigos, na qual tratou da crise brasileira no contexto do que chamou de “nostalgia das grandes narrativas” desaparecidas com o colapso do comunismo soviético, a crise do capitalismo, “a fascinação com os novos totalitarismos do século 21” expressos por fundamentalismos religiosos, “o novo confucionismo oriental e novos populismos” na América Latina.

“Vista nesta perspectiva, a crise que afeta o Brasil vai muito além de um confronto entre políticas econômicas e sociais, problemas de corrupção e firulas jurídicas sobre se o governo cometeu ou não crime de responsabilidade (…)”, escreveu Simon. “Tudo isso tem sua importância, mas o que está em jogo é se o país vai conseguir, em algum momento, incorporar os valores e a cultura de uma sociedade pluralista, democrática e moderna, ou vai continuar atolado no pântano de ideologias degradadas e sua outra face, que é o predomínio dos interesses imediatos e predatórios, na economia e na sociedade.” Eis o desafio da crise que nos assombra.

* PAULO SOTERO É JORNALISTA, DIRETOR DO BRAZIL INSTITUTE DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, EM WASHINGTON