Ofensiva charmosa de Putin

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, perdoou e mandou libertar o empresário Mikhail Khodorkovski, o principal preso político do país. A surpreendente notícia, dada por Putin de modo casual ao final de uma entrevista coletiva, parece integrar uma ofensiva do Kremlin para melhorar a imagem russa às vésperas da realização da Olimpíada de Inverno, em Sochi, sudoeste da Rússia.

O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2013 | 02h08

Essa estratégia inclui a anistia a 20 mil prisioneiros, entre os quais adolescentes, idosos, mulheres grávidas e veteranos de guerra, aprovada na quarta-feira pelo Parlamento russo. O perdão deve se estender a ativistas do Greenpeace, detidos recentemente por protestar contra a exploração de petróleo no Ártico, e às integrantes da banda punk Pussy Riot, presas desde o ano passado após tocarem uma música crítica a Putin numa igreja.

Os Jogos de Inverno começam em 7 de fevereiro e têm sido objeto de intensos pedidos de boicote ao redor do mundo, como resposta à truculência de Putin contra minorias sexuais e opositores políticos e para protestar contra a ingerência de Moscou na Ucrânia.

Não são apenas organizações de defesa de direitos humanos que estão se mobilizando para censurar Putin durante a competição esportiva. Os Estados Unidos informaram que nem o presidente Barack Obama, nem seu vice, Joe Biden, nem a primeira-dama, Michele, integrarão a delegação do país a Sochi. Em vez disso, o governo americano será representado por assessores de segundo escalão. Ademais, a delegação terá expoentes da defesa dos direitos dos gays, como a ex-tenista Billy Jean King e a jogadora de hóquei Caitlin Cahow - um modo nada sutil de criticar o governo russo por patrocinar leis que criminalizam a homossexualidade. Outros importantes chefes de Estado europeus, como os presidentes francês, François Hollande, e alemão, Joachim Gauck, já avisaram que não pretendem ir a Sochi.

Esse clima sombrio envolvendo os Jogos de Inverno ameaçam o grande investimento de Putin na competição, vista por ele como uma maneira de refletir o retorno da Rússia à condição de grande potência. Para isso, o presidente despejou nada menos que US$ 50 bilhões para erguer a infraestrutura necessária, um valor digno da cleptocracia instalada no Kremlin.

A proximidade da Olimpíada de Sochi, portanto, é uma boa razão para que Putin tenha decidido soltar Khodorkovski, cuja prisão, há dez anos, simbolizou a ofensiva contra as pretensões políticas dos chamados "oligarcas" russos - que fizeram fortunas no processo de privatização das antigas estatais soviéticas.

Khodorkovski era dono da Yukos, então uma das mais importantes empresas de energia e petróleo da Rússia. Na época de sua prisão, era o homem mais rico do país. Ele se tornara inconveniente quando decidiu fazer oposição a Putin, apontando publicamente as relações corruptas do autocrata. Acabou condenado por evasão fiscal e lavagem de dinheiro, num processo repleto de irregularidades.

O Conselho da Europa, o Congresso americano e o Parlamento alemão, entre outras instituições, condenaram o julgamento de Khodorkovski, fazendo notar sua clara motivação política. A vendeta de Putin custou caro à Rússia, pois afugentou investidores estrangeiros, preocupados com a insegurança jurídica do país.

Ao anunciar o perdão a Khodorkovski, Putin disse apenas que o ex-empresário já havia cumprido uma "pena severa". Para enfatizar ainda mais a sua "bondade", contou ter tomado sua decisão depois de ter recebido um pedido de Khodorkovski, alegando razões humanitárias - a mãe do ex-empresário estaria doente.

Os advogados de Khodorkovski, porém, disseram que seu cliente não fez nenhum pedido a Putin. A mãe do empresário também disse desconhecer tal solicitação. Afigura-se mais uma farsa do Kremlin para justificar decisões autocráticas do presidente.

Seja como for, é provável que Putin tenha considerado que Khodorkovski - alquebrado pelos anos na cadeia e devidamente advertido sobre o risco que correm aqueles que desafiam o senhor de todas as Rússias - não constitui mais uma ameaça a seu poder.

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