Olhar para os juros. E para o lado de fora

Quaisquer que sejam os números usados, concordam jornais e televisões que as manifestações de rua no último domingo foram “as maiores da História” no País – sem tumultos em qualquer parte. Mas com informações surpreendentes, como a de alguns jornais para os quais 70% dos participantes tinham nível superior de educação.

Washington Novaes*, O Estado de S.Paulo

18 Março 2016 | 03h00

Que quererá dizer tudo isso? Que consequências terá? Dizem alguns que não haverá mais como escapar ao impeachment da presidente da República, ainda mais com as complicações que cercam o ex-presidente Lula e o PT. Outros acreditam que, após renúncia da presidente, fatalmente iremos para o parlamentarismo ou para um regime misto. E vêm palavras muito duras de empresários como José Alves Filho, presidente da Associação Brasileira Pró-Desenvolvimento Sustentável (Adial Brasil): “O custo do financiamento está 71% mais caro. Temos que reposicionar a política monetária. E se não cair a ficha, nós vamos quebrar (...). O custo do financiamento está 71% mais caro para as pessoas O dinheiro do trabalhador não se multiplica nessa velocidade(...). No ano passado, 41% dos apartamentos foram devolvidos” (O Popular, 15/3).

É curioso, entretanto, que raras análises se refiram a aspectos como a influência dos fatores externos na situação brasileira, principalmente taxas de juros bancários, altíssimos lucros do sistema financeiro internacional e nacional e os rendimentos que ele proporciona a uma parcela estrita como a dos grandes aplicadores. A empresa Ipiranga, o principal negócio do Grupo Ultra – um dos considerados “privilegiados” (Estado, 14/3) –, por exemplo, teve alta de 12% na receita, que chegou a R$ 75,7 bilhões, com lucro de R$ 1,2 bilhão (mais 21%). O Grupo JBS (Friboi), faturou no terceiro trimestre do ano passado R$ 43 bilhões, quase 40% mais que em igual período de 2015; o lucro subiu 214%, para R$ 3,4 bilhões.

Quem se apega apenas a esse setor parece não considerar as projeções dos institutos de pesquisa econômica segundo as quais o produto interno bruto brasileiro (PIB) em 2016 deve cair pelo terceiro ano consecutivo. Em 2015 foram fechados 114 mil postos de trabalho para pessoas com nível superior de educação (6/3) – ao contrário dos anos 2004 a 2014, quando o PIB subiu 7,6% e foram abertas 306 mil ocupações nesse nível. Só as perdas em 2015 anularam os ganhos de 2012-13.

Agora, os números são inquietantes. O de desempregados sobe 41,5% em um ano e chega a 9,1 milhões, diz o IBGE (UOL, 19/2), 8,5% mais que no ano anterior. A renda média do trabalhador em janeiro, na média, estava em R$ 1.944, ou 7,4% abaixo da de um ano atrás. Em seis regiões metropolitanas o desemprego pode chegar 10% – mas em 3.500 municípios pode elevar-se até 13%. Até o fim do ano, a recessão será a pior já medida no País (Folha de S.Paulo, 14/3). Com a projeção do PIB de 2016 estimada para cair pelo terceiro ano consecutivo (Estado, 6/3), admite-se que também poderá ser negativa em 2017. O crédito ao consumidor foi 7,7% menor em janeiro do que há 12 meses – e esse crédito irriga 60% do PIB.

Mais pessimista ainda é a projeção do Instituto Internacional de Finanças (representantes dos 500 maiores bancos e instituições financeira), que espera contração de 4% a 4,5% no PIB brasileiro para o ano. “A incerteza é a única certeza no Brasil”, diz um de seus membros (Estado, 9/3). “A crise política está aprofundando o panorama (...). Estrangeiros aplicam o maior volume de recursos nas bolsas brasileiras – e a situação pode piorar com a saída da presidente Dilma”. Já o Banco Mundial avalia que crescimento no Brasil só no ano que vem, com 1,4% (Estado, 7/1), quando já este ano a economia mundial evoluirá 2,1% e mesmo a da América Latina crescerá 2%. O superciclo mundial das commodities desacelerou-se, assim como a economia da China, lembra a economista Maria da Conceição Tavares (Estado, 12/12/05) – trazendo para a discussão mais um fator externo, já que o mercado mundial de commodities é controlado por um cartel de empresas internacionais. E a Standard & Poor’s rebaixa o Brasil para uma “perspectiva negativa”. Principalmente o setor de serviços, que decresceu 5% nos últimos 12 meses – e ele influi em 70% do PIB.

Pedro Alves Oliveira, presidente da Federação das Indústrias de Goiás, depois de lembrar que “os três maiores bancos privados do País em 2015 tiveram lucros bilionários de R$ 47,16 bilhões” (O Popular, 11/3), acrescenta que em três anos foram R$ 117,94 bilhões – ao mesmo tempo que o valor médio da hora de trabalho caía 10,3%, o faturamento industrial baixava 8%, o nível de emprego reduzi-se em 6,1% e a massa salarial em 6,7%. E sentencia: “As taxas de juros são um pesadelo; a média dos juros no cheque especial vai a 287% ao ano, os mais altos desde 1995; nos cartões de crédito, a média é de 431,4% (...). Estamos sugados por um sistema financeiro perverso, beneficiando práticas equivalentes, e com a taxa Selic permanecendo em 14,25%”.

E assim vamos. O Brasil é o segundo maior devedor do mundo (Estado, 11/1), com US$ 322 bilhões, menos que a China apenas (US$ 1,1 trilhão). A desvalorização do real diante do dólar e o acúmulo de dívidas de empresas brasileiras em moeda norte-americana podem levar a economia brasileira a “parar”, segundo alerta dos bancos centrais reunidos na Suíça. Ao final de 2015, um total de US$ 9,8 trilhões estava emprestado ao setor empresarial, fora dos Estados Unidos. Empréstimos a empresas brasileiras triplicaram para US$ 206 bilhões. A Petrobrás é a maior devedora. Para conter a dívida bruta o Brasil precisa de superávit primário de 6% do PIB no próximos três anos, quando já enfrenta sua pior recessão. O comércio exterior está em período difícil, e os melhores resultados, na exportação de commodities, mostram preços em queda. Se nada mudar, diz José Alves Filho, “o País quebra até o fim do ano”.

Muitos avisos.

*Washington Novaes é jornalista

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