Olimpíadas de conhecimento

Falta de recursos e de capacidade administrativa coloca em risco o avanço de experiências educacionais bem sucedidas

O Estado de S.Paulo

17 Abril 2017 | 03h00

Depois do sucesso da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – criada em 2005 pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e que no ano passado contou com 17 milhões de competidores e um número recorde de escolas inscritas –, outras competições semelhantes estão sendo criadas por fundações, centros de pesquisa e universidades públicas com o objetivo de mostrar o lado prático do que é ensinado em sala de aula, incentivar a curiosidade das novas gerações pelo conteúdo das ciências exatas e biomédica, identificar talentos e atrair os melhores alunos para as carreiras de cientista e pesquisador.

O formato desses eventos encoraja a competição saudável, que motiva os estudantes, melhorando seu desempenho. Também motiva os professores a ensinar suas disciplinas de modo mais criativo. A Olimpíada de Matemática de 2016 concedeu 500 medalhas de ouro, 1,5 mil medalhas de prata, 4,5 mil medalhas de bronze e 46,2 mil menções honrosas, além de premiar os professores e as escolas que mais se destacaram pelo desempenho de seus alunos.

Atualmente, os alunos do ensino médio já podem participar de olimpíadas de conhecimento nas áreas de informática, biologia, neurociências, astronomia, saúde, meio ambiente e agropecuária. Em algumas delas, o conteúdo das provas vai muito além do que está contemplado no currículo básico das escolas. Existem, também, competições para alunos das séries iniciais do ensino fundamental, na faixa etária de 11 a 12 anos, o que os estimula a participar de programas de iniciação científica à medida que vão mudando de série.

Nos eventos organizados para alunos do ensino médio, os primeiros colocados costumam receber ajuda financeira e logística para participar de olimpíadas internacionais. Na maioria das vezes, os vencedores das competições realizadas no Brasil também conseguem obter com facilidade, quando concluem o ensino superior, vagas nos programas de mestrado das universidades federais e em cursos de doutorado em prestigiadas universidades americanas e europeias.

Diante da multiplicação dessas competições, dirigentes escolares e professores universitários propuseram ao governo federal sua conversão num projeto educacional de grande alcance em áreas técnicas nas quais o Brasil é carente de pesquisadores e cientistas. Contudo, faltam recursos e capacidade administrativa para que essa proposta seja posta em prática. Por causa dos bilhões de reais desperdiçados com programas mal formulados – um bom exemplo disso é o Ciência sem Fronteiras – e da queda da arrecadação provocada pela grave crise econômica em que o País está mergulhado, nem o Ministério da Educação nem os órgãos de fomento à pesquisa e qualificação – como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – dispõem de recursos suficientes para custear as olimpíadas de conhecimento.

Há quatro anos, os estudantes selecionados para participar da Olimpíada Ibero-Americana de Biologia, realizada em Portugal, não receberam, nas condições previstas, o dinheiro prometido para passagem e estadia. Entre 2015 e 2016, as verbas do CNPq para patrocínio dessas competições caíram de R$ 4 milhões para R$ 2,5 milhões. A situação continua difícil porque, para este ano, a estimativa é de que não ultrapassem R$ 1,25 milhão. No caso específico da Olimpíada de Matemática, até recentemente os estudantes de ensino médio que obtiveram os primeiros lugares na competição de 2016 não tinham recebido o prêmio que ganharam – um dia de aula por mês com docentes de universidades federais – por falta de verba pública para transporte.

Problemas como esses estão pondo em risco experiências educacionais que deram certo e frustram estudantes de escolas públicas que se esforçaram para aprender mais.

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