Os 60 anos da TV brasileira

A televisão aberta brasileira completou 60 anos. Desde a primeira transmissão da TV Tupi, em São Paulo, no dia 18 de setembro de 1950, por uma iniciativa ousada de Assis Chateaubriand, a evolução tecnológica, o arrojo empresarial e o talento dos nossos profissionais fizeram da televisão um case de padrão internacional. Com penetração de 95,7% nos domicílios do País (2009, Pnad/IBGE), este meio popular por vocação tem sido capaz de integrar milhões de pessoas, valorizar as realidades regionais e dar-lhes acesso gratuito a informação, cultura e entretenimento. Seu papel para o fortalecimento da identidade nacional é incontestável.

Emanuel Soares Carneiro, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2010 | 00h00

Nos mais longínquos rincões, cidadãos conectam-se com o restante do Brasil e com o mundo por intermédio de seu televisor e, independentemente de classe social ou nível de instrução, têm acesso às mesmas informações.

Em entrevista à revista Época, em 2006, o sociólogo francês Dominique Wolton afirma que a televisão provocou uma revolução na vida de milhões de pessoas. Para ele, que é um dos mais respeitados especialistas em comunicação no mundo, a televisão "produz uma cultura mediana acessível, sensibiliza o telespectador para outras culturas e reflete o mundo contemporâneo", instigando o cidadão a buscar informação e conhecimento antes ignorados.

Nas palavras de Wolton, a "cultura televisiva popular" é, em síntese, o que as pessoas têm em comum, mas, ao ser repartida entre os pares, fortalece a noção de democracia. Dessa forma, a TV promove um indiscutível processo de evolução social, como observamos no Brasil nas últimas décadas.

Dados de recente pesquisa encomendada à empresa Meta pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), sobre o acesso à informação e a formação da opinião da população brasileira, mostram que as percepções de Wolton em relação ao papel deste meio de comunicação estão corretas. A pesquisa revela, por exemplo, que, para 66,3% das pessoas, a televisão aberta é o meio de comunicação mais relevante para buscar informação e, para 69,4%, é a mídia mais confiável. Quanto à programação, 64,6% dos entrevistados consideram os telejornais os programas mais importantes, seguidos das novelas, com 16,4%. O levantamento ouviu 12 mil pessoas em 639 cidades de cinco regiões do País.

Com noticiários, reportagens, entrevistas e debates entre candidatos, a televisão tem sido fundamental para a consolidação da democracia. Além de prover informação e estimular a discussão de temas de interesse nacional, é com a produção regular de séries e campanhas de utilidade pública que este meio estabelece compromisso com as demandas sociais, seja de dimensão nacional ou comunitária, de qualquer pequena cidade interiorana.

Isso só é possível graças ao modelo federativo de radiodifusão, semelhante ao que ocorre em outros países de dimensões continentais. Baseado no conceito de redes de programação básica, ele combina grandes centros de produção, dotados de tecnologia avançada, e profissionais altamente qualificados, capazes de fornecer conteúdo a milhares de emissoras e municípios. O mesmo acontece no sentido inverso - as emissoras afiliadas às redes nacionais contribuem com a sua visão regional e local.

Marcado pela diversidade e pela pluralidade, este modelo compreende 496 emissoras de televisão, sendo 295 comerciais e 201 educativas, e mais de 5 mil estações retransmissoras. A indústria televisiva brasileira gera mais de 200 mil postos de trabalho, diretos e indiretos, produz 70 mil horas/ano e, apenas em programas jornalísticos, 180 mil horas/ano. Cerca de 70% desse conteúdo é nacional - 90%, se considerado apenas o horário nobre.

Uma das grandes contribuições do setor é, por certo, o estímulo ao desenvolvimento econômico e social. Estudo da empresa Tendências Consultoria Integrada realizado em 2007, com base no conceito econométrico, verificou que a inserção de meios de comunicação, entre eles a TV, tem efeito positivo sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A televisão leva informação atualizada sobre tendências de mercado, oportunidades de trabalho e novos produtos e tecnologias, contribuindo para tornar mais robustos os mercados regionais e locais.

Como está organizado, o modelo brasileiro dá oportunidade às pequenas e médias empresas de anunciarem seus produtos e serviços localmente a um custo adequado à sua realidade financeira, alcançando o público-alvo, melhorando suas vendas e gerando empregos.

Para se ter uma ideia desse alcance e de seu impacto na economia, a mesma pesquisa revela que mais de 5.600 agências de publicidade interagem com o setor de radiodifusão. A maioria de seus clientes são pequenas empresas que compram espaços em programação local de TV: dos 45 mil anunciantes anuais de TV, 94% têm gastos anuais inferiores a R$ 50 mil. Esses números atestam outra característica essencial do modelo brasileiro de televisão: a multiplicidade de anunciantes garante independência e qualidade na produção de conteúdo.

Até 2012 teremos disseminado no Brasil o padrão digital de televisão, que, mais do que qualidade superior de imagem e som, permitirá o avanço da mobilidade e da portabilidade, ou seja, a capacidade de o telespectador receber o sinal em aparelhos portáteis ou celulares. O sistema nipo-brasileiro também se internacionaliza e é adotado até o momento por 11 países.

É um passo decisivo para a inserção da TV no ambiente de acelerada convergência tecnológica, que permitirá cada vez mais o acesso a voz, vídeo, dados e texto nas mais variadas plataformas.

Portanto, ao completar 60 anos de existência, percebemos que a televisão brasileira continua forte e rejuvenescida, cumprindo o seu papel para o crescimento econômico e a consolidação da democracia.

PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMISSORAS DE RÁDIO E TELEVISÃO (ABERT)

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