Os alertas do FMI

Ninguém deve enganar-se com o aparente otimismo do Fundo Monetário Internacional (FMI) em suas novas projeções de crescimento global - 3,5% neste ano e 3,9% em 2013, números bem próximos daqueles divulgados em abril. Muito mais importante que essas projeções é a mensagem aos políticos: o resultado efetivo será muito pior se os governos falharem nas medidas para destravar a economia na zona do euro, reanimar os países emergentes e evitar um desastre nos Estados Unidos. A adoção dessas medidas é um pressuposto das novas previsões, mas os números são acompanhados de advertências bem claras. Não há dúvida sobre o empenho do governo da China, o maior dos emergentes, para evitar uma desaceleração abrupta. As autoridades chinesas já cortaram os juros, criaram facilidades para a expansão do crédito e reduziram impostos para atrair o investidor estrangeiro. Na Europa, no entanto, é preciso avançar nas ações de fortalecimento dos bancos, de apoio aos governos endividados e de abertura de espaço para maior crescimento. Nos Estados Unidos, o impasse político em torno do orçamento e da política de ajuste é a principal fonte de risco.

O Estado de S.Paulo

17 Julho 2012 | 03h07

Os europeus têm dado passos na direção certa, mas falta, segundo os autores do relatório, avançar na unificação da política bancária para a zona do euro, na integração das políticas orçamentárias e num apoio mais amplo aos países da chamada periferia do euro. É necessário, disse o economista-chefe do FMI, garantir ajuda tanto à Espanha quanto à Itália, para facilitar o financiamento de suas contas públicas.

O ajuste fiscal avança em ritmo satisfatório na maior parte da zona do euro, segundo os especialistas do FMI, mas um aperto excessivo poderá agravar as dificuldades econômicas e a própria recuperação dos orçamentos. A adoção de medidas para combinar ajuste de longo prazo e crescimento depende, no entanto, de um acerto político entre os governos mais influentes. Diplomaticamente, os técnicos e diretores do FMI evitam detalhes, mas o recado é em boa parte dirigido às autoridades alemãs, principais defensoras de uma austeridade fiscal sem concessões. Para a zona do euro as projeções indicam uma contração de 0,3% neste ano e uma expansão de 0,7% no próximo.

No caso dos Estados Unidos, o crescimento previsto para este ano, de 2%, é apenas 0,1 ponto inferior ao projetado em abril. Para 2013 foi estimada uma expansão de 2,3%, mas com uma ressalva assustadora. Sem um acordo político, cortes temporários de impostos serão eliminados automaticamente, despesas serão contidas de forma abrupta e a redução do déficit público será equivalente a 4 pontos de porcentagem do PIB - uma enormidade. A consequência será um violento freio na economia, com impactos em todo o mundo. Não se menciona o vilão da história, mas obviamente se trata da oposição republicana, empenhada em travar todas as medidas de estímulo à economia americana.

Para os emergentes está previsto crescimento de 5,6% em 2012, com aceleração para 5,9% em 2013. Os números são menores que os estimados em abril, mas o cenário ainda inclui expansão de 8% para a China e de 2,5% para o Brasil - talvez a mais otimista das projeções. No caso da China, o risco maior é uma freada brusca nos investimentos.

Os emergentes, segundo o relatório, vêm crescendo há alguns anos acima de seu potencial, em parte graças à expansão do crédito e ao desenvolvimento do setor financeiro. Como resultado, a expansão desses países, no médio prazo, pode ser menor do que se vinha estimando. A exposição se detém neste ponto, sem mais detalhes sobre cada caso. Mas o comentário, pode-se acrescentar, aplica-se muito bem ao Brasil, onde o debate sobre o potencial de crescimento é especialmente oportuno. O potencial brasileiro, segundo algumas estimativas respeitáveis, deve estar na faixa de 3,5% a 4% ao ano. Esse limite só será ultrapassado por meio de investimentos maiores, com enfoque mais cuidadoso e realizados com maior eficiência. Sem isso, a economia poderá crescer mais rapidamente em alguns períodos, mas a expansão acima do potencial acabará resultando em desajustes graves, como pressões inflacionárias e rombos nas contas externas.

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