Os brasileiros e a natureza

A esquizofrenia de hábito: o olhar pasmado do ‘natureba’ e o dedo no gatilho da motosserra

*Pedro Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2017 | 03h16

Imagine-se uma família de cinco pessoas – pai mãe e três filhos – levando uma vida intimamente ligada à natureza, morando numa casa onde nunca tenha entrado açúcar refinado, nem adoçantes ou conservantes artificiais. Que essa família não frequente McDonald’s nem compre sopas de pacote e alimentos congelados, que nunca ou quase nunca se alimente de carne vermelha e não saiba o gosto de refrigerantes artificiais. E, também, que em caso de doença mantenha a tradição dos bons remédios caseiros, chás extraídos de ervas colhidas na época certa, segundo uma tradição centenária. Imagine-se que essa família também não tenha a mania dos antibióticos e recuse vacinas, não use roupas de nylon nem calçados de plástico e nenhuma embalagem que não seja biodegradável. Imagine-se, enfim, uma família em que todos vivam de acordo com o ritmo imutável das estações, respirando o ar livre de poluição industrial, em grandes espaços expostos ao sol e à chuva, e tenha o hábito de manter os pés descalços em longas caminhadas, sentindo o contato direto com o solo da mãe natureza.

Será que no Brasil de hoje ainda existem famílias que se comportem dessa maneira? Será que ainda sobrou alguma?

Como não? Existem, sim, e são milhões. Podem ser vistas todos os dias pelo País afora, expulsas da miséria do campo para a miséria das favelas nas periferias dos grandes centros. Cultivavam uma rocinha de algodão, mas por falta de agrotóxicos o curuquerê comeu. O pai tem doença de Chagas e a mãe, esquistossomose. Ambos, com 35 anos, parecem 60 e só conservam uns restos de dentes na boca. Os três filhos vão se arrastando, vergados pela verminose. São os que tiveram sorte. A família já foi maior. Outros cinco irmãos não passaram da primeira infância: um morreu no parto natural; outro, do “mal de sete dias”, porque a mãe colocou estrume no umbigo no momento em que ele nasceu; um terceiro, de “nó na tripa; mais um, de diarreia, agravada por mau-olhado; e outro de “uma coisa esquisita que deu lá nele.”

“Pelo amor de Deus!”, exclamará alguém. “Uma família não tem nada que ver com a outra.” E terá razão até certo ponto. Enquanto a família apresentada no primeiro parágrafo flutua no mundo ideal dos mitos e das utopias, a do terceiro parágrafo se arrasta pela estrada poeirenta da realidade. Uma é charmosa, alimenta-se de sonhos, de verbas de publicidade, a outra sobrevive de salário mínimo.

Na vida real, não se encontram. Sua aproximação nessas linhas serve apenas para ressaltar a incoerência que tomou conta do debate das relações entre o homem e natureza, no Brasil.

Outro exemplo?

Tudo o que é natural é bom e tudo o que é artificial é nocivo, repetimos incansavelmente, sem refletir um instante sequer no que estamos dizendo. Como “provas” da bondade da natureza, mostramos às crianças filhotes de gatos e cachorros, ensinamos a desenhar árvores e flores. Pela tela de televisão, mostramos aos adultos outras “provas”, como cavalos correndo pela praia, moças nuas tomando banhos de cachoeira e até, sabe-se lá por quê, uma família feliz passando margarina no pão.

Não ocorre a ninguém lembrar algumas verdades óbvias, embora curiosamente fora de moda, como, por exemplo, que entre as obras da natureza figuram não apenas a saúde e a juventude, mas, igualmente, todas as doenças, a velhice e a morte. Que a dor de dentes, o tétano, a apendicite, a gangrena, a pneumonia, a meningite, a aids e todas as espécies de câncer são naturais, enquanto os anestésicos, as sulfas, os antibióticos, as intervenções cirúrgicas, a quimioterapia, a radioterapia e todas as outras infinitas conquistas da ciência são artificiais.

Outro exemplo evidente?

Salvemos as espécies ameaçadas de extinção, dizem-nos os ecologistas. E todos repetimos com a convicção de quem repete uma verdade revelada. Qual desalmado poria em dúvida a necessidade de salvar o pacífico ursinho panda, que se alimenta de brotos de bambu, ou o engraçado mico-leão-dourado? Mesmo os animais mais antipáticos, asseguram-nos, tem seu lugar na cadeia alimentar e seu desaparecimento pode causar dramáticos desequilíbrios ecológicos. Salvemos não apenas o tigre-de-bengala e a ararinha azul, mas também o piolho, os chacais, as hienas e os urubus. Todos ele são “úteis”, todos indispensáveis.

Muito bem. Mas o que fazer com outras espécies ainda mais ameaçadas, como o bacilo de Koch e o vibrião da cólera? Devemos lutar pela preservação de organismos responsáveis pela paralisia infantil, a lepra e o tifo, chorar o desaparecimento da peste bubônica? Isso sem falar na falta de varíola, que ainda recentemente tanto contribuiu para evitar de forma natural a superpopulação. Ou no vírus da aids, cada vez mais ameaçado de extermínio total pelo progresso da ciência.

“Uma coisa não tem nada que ver com a outra”, repetirá, cada vez mais indignado, o nosso imaginário interlocutor. “Trata-se de mais uma confusão proposital destinada a desmoralizar quem defende a natureza.” Ainda uma vez terá razão, mas apenas em parte. Confusões em penca – ou, melhor dizendo, contradições em penca – existem, realmente, mas o responsável por elas é quem as cria, e não quem as aponta. Contradições existem, aliás, de todos os lados, e são tão agudas entre os adoradores da natureza quanto entre os seus adversários.

Vejamos, agora, o reverso da medalha. Que, em vez de uma simples família, o leitor imagine um país gigantesco onde o desprezo real pela natureza seja de tal ordem que zonas imensas de mata nativa tenham virado carvão; onde a população envenene a própria água, transformando em verdadeiros esgotos a céu aberto os rios históricos de suas grandes cidades e suas cabeceiras, em depósitos de lixo.

Entramos assim no final da segunda década do novo milênio, com a esquizofrenia de hábito: o olhar pasmado do “natureba” e o dedo tremendo no gatilho da motosserra.

*Jornalista e escritor

 

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